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À procura das ilusões perdidas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Comissões Parlamentares de Inquérito produzem muita espuma e pouco resultado líquido. A tentativa de investigação de negócios nebulosos na Petrobras ensaia um novo fracasso. A oposição defende uma sindicância que se debruce exclusivamente sobre as denúncias de que a estatal cometeu erros grosseiros na compra de uma refinaria no Texas. Governistas, numa reação também não surpreendente, exigem que o Congresso investigue atividades da empresa antes dos governos petistas. Aliados do Planalto pretendem ainda que a Comissão trate de acusações do Ministério Público sobre propinas do metrô de São Paulo, de envolvimento da Cemig - Companhia Energética de Minas Gerais - no chamado mensalão tucano e de possíveis irregularidades no Porto de Suape, em Pernambuco. O objetivo é atingir governos do PSDB e PSB. Os fatos são graves, tanto de um lado quanto de outro, mas ninguém no Congresso está a fim de esclarecer. Querem mesmo confundir com manobras diversionistas. Abre-se o leque de denúncias para que a CPI nunca termine com tantos obstáculos criados.

"E La nave va...", como no falso documentário de Fellini, ora em cor sépia e por vezes adquirindo os tons vibrantes dos pseudomoralistas. A atmosfera é surreal. Enredos e personagens repetem cenas e diálogos da mesma ópera-bufa conhecida de todos os brasileiros. O deputado petista André Vargas surge no palco como sócio do doleiro Alberto Youssef. Tramavam saquear o Ministério da Saúde. Dezenas de milhões de reais seriam desviados de uma das áreas que mais produzem sofrimentos para os mais pobres, pela alegada falta de recursos.

André Vargas é o mesmo parlamentar que desrespeitou o ministro Joaquim Barbosa durante uma visita oficial ao Congresso. Levantou o punho esquerdo para demonstrar solidariedade aos mensaleiros. Ele é que agora precisará da solidariedade dos companheiros, porque terá que se haver com o Supremo Tribunal Federal no processo da Operação Lava Jato. Vargas, como vice-presidente da Câmara, defendia a censura, sob disfarce de controle social da mídia. Será que outros ocupantes de cargos importantes levantarão o punho por ele?

E não para por aí. O navio fantasma segue o seu rumo por águas turvas, entre brahmas e brumas. Pela primeira vez na história deste país a Petrobras é invadida pela Polícia Federal para apreensão de documentos suficientes para balançar a República. Coisa de R$10 bilhões de reais movimentados por grandes empreiteiras da estatal, conhecidas doadoras de campanhas eleitorais. O capitão do barco é o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso preventivamente na Operação Lava Jato. Trabalhava mancomunado com o doleiro Youssef, o "primo" que lhe dera de presente um Land Rover de 250 mil reais. Esse mesmo doleiro, especialista em lavagem de dinheiro remetido ao exterior e que volta "limpo" como "investimento" é o mesmo amigo e parceiro do deputado Vargas.

Os brasileiros de bom senso já desistiram da possibilidade de melhorar o país mediante um choque ético dado pelos eleitores, nas urnas. A cada eleição renova-se metade do Parlamento sem que alguma coisa se modifique para melhor. A esperança era de que as manifestações de rua pudessem ajudar. O correspondente do El País Juan Arias estava pronto para uma grande cobertura jornalística durante o Carnaval. Achava que os black blocs iriam trabalhar sem fantasia. Qual não foi a sua frustração ao ver manifestantes, criminosos, a polícia e até mesmo os políticos, todos envolvidos na celebração coletiva. Embora reconheça a imprevisibilidade do que acontecerá agora com a Copa e com as eleições presidenciais, o analista espanhol conclui que a opção dos brasileiros é pelo jeitinho e por soluções transversais para os conflitos. Os black blocs estão cansados.

A polícia venceu. A repulsa à violência é um argumento civilizado. Mas há outros pontos que os brasileiros podem alcançar sem comprometer a sua identidade, como educação transformadora, segurança pública, serviços eficientes de saúde, melhor infraestrutura e governança íntegra. Ilusão? Pode ser. Mesmo assim é preciso persegui-la com trabalho, justiça e cidadania.

? O autor é jornalista e articulista do JC

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