Ciências

Inflamação provocaria câncer?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

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O organismo tem mecanismos para eliminar as células que depois da mitose se apresentam atípicas. Isto acontece todos os dias!

Todos os dias somos lesados e temos um mecanismo fantástico de defesa: a inflamação. Os vasos formam um verdadeiro espaguete de canudinhos perfurados e, quando machucamos, deixam passar substâncias e células do sangue pelas suas paredes permeáveis para destruírem o agressor no local. Por isto que fica inchado! Depois de vencer o agressor, substâncias e células induzem a reconstrução ou reparo, restabelecendo estrutura e função. A inflamação é fantástica, pois além de atuar contra o agressor, ainda promove o reparo!

As células conversam muito entre si liberando substâncias que as vizinhas entendem como mensagens para executar certas funções como verdadeiras palavras bioquímicas chamadas de citocinas, quimiocinas, fatores de crescimento e outros. Em um local inflamado haverá facilitação para que as células ataquem os agressores e, ao mesmo tempo, ocorre uma permissividade para a multiplicação das células durante a reconstrução tecidual. Esses mecanismos são essenciais para a integridade do corpo diante das constantes ou inevitáveis agressões e, bem regulados e equilibrados, são incrivelmente harmônicos e auto-limitáveis.

O corpo tem mecanismos muito eficientes de controle da proliferação das nossas 10 trilhões de células. Durante o reparo dos tecidos, as células sanguíneas ou imunológicas são programadas para atacar os agressores, mas sem que ataquem impulsivamente nossas células que estão proliferando, pois sua tendência seria considerá-las estranhas. Neste momento, podem eventualmente perder o controle da proliferação e dar lugar a mecanismos de formação das neoplasias malignas.


Tirando as atípicas

Todos os dias, algumas células filhas nascem defeituosas, atípicas e se não eliminadas, de uma forma ou de outra, poderão criar um clone de células diferentes que ganham autonomia e passam a roubar nutrientes e locais das normais: eis que surge o câncer. Isto não pode acontecer! Uma forma de matar estas células é induzir sua morte por apoptose ou suicídio via substâncias liberadas pelas células imunológicas. Outra forma: como as células atípicas apresentam proteínas diferentes nas superfícies, são reconhecidas como estranhas por células assassinas ou “Killer” de defesa e eliminadas.

A produção dos mediadores da proliferação se interrompe com o fim da reparação, mas as células atípicas que escaparam do controle não obedecem mais e proliferam indefinidamente. Os mediadores que inibiram a apoptose na hora de formar novos tecidos, inibem a da célula atípica e sua proliferação desordenada pode dar origem ao câncer. As células assassinas do corpo ficam mais tolerantes, pois se quer que as células proliferem para reparar, mas pode-se perder o controle.

Ninguém é maligno por acaso: as células cancerosas podem produzir inflamação para sustentar seu crescimento ao liberarem mediadores que estimulam a proliferação na reparação. Subvertido, o processo atua a favor das células cancerosas para proliferarem, infiltrarem os tecidos vizinhos e formarem metástases.

Ao encorajar os tecidos a inflamar e reparar, pode-se disponibilizar mecanismos para o aparecimento do câncer e quanto mais ele produz inflamação ao redor, mais se propaga com metástases. Pelo nível de produção de mediadores da inflamação, permite-se antever a sobrevida do paciente.

Apesar de tudo isto, pode ser simplista e alarmista afirmar que a inflamação favorece ou antecede o câncer. Nas áreas traumatizadas, inflamadas e reparadas todos os dias como a boca e membros, a frequência de neoplasias malignas não corresponde à das áreas não inflamadas: é bem menor! Esta relação inflamação e câncer ainda precisa ser muito estudada!

Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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