A Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) passou a operar a coleta seletiva em maio de 2013 e, desde então, segundo informações da autarquia, ajustes necessários vêm sendo feitos para melhorar a qualidade do serviço. Em matéria publicada recentemente, o JC apontou que falta material reciclável para o trabalho nas três cooperativas instaladas no município. Realidade que tem fonte em fatores que vão desde a falta de conscientização da população na hora de separar o lixo, até a má qualidade do serviço público.
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Éder Azevedo |
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Três caminhões operam pela coleta seletiva, recolhendo os lixos, no período da manhã, dois à tarde e um à noite. |
“Eu, por exemplo, desisti de colocar as embalagens na calçada de casa porque o dia e horário da coleta mudam muito e não somos avisados. Cansei de ligar perguntando sobre as mudanças de horário. O lixo fica dias exposto, os catadores selecionam o que querem e espalham o restante, e aí vem a chuva, que espalha ainda mais. Como eu tenho consciência ambiental, não deixo de separar o lixo, lavar os recipientes e encaminhar à reciclagem. Minha solução? Levar tudo até um dos ecopontos. Muitos ainda não se deram conta da importância da reciclagem, mas a coleta irregular e a ausência dela em algumas localidades é a principal causa do pouco material enviado às cooperativas atualmente”, avalia a psicóloga Maria Edith Arantes, moradora da rua Oliciar de Oliveira Guimarães, no Jardim Aeroporto.
Assim como Maria Edith, boa parte da população se mostra descontente e até perdida com o serviço de coleta realizado na cidade. Em resposta às cartas enviadas para a coluna Tribuna do Leitor, a Emdurb ressaltou que ações estão sendo colocadas em prática para melhorar o trabalho. Como exemplos, citou o fomento ao desenvolvimento de novas cooperativas, apoio às já existentes, reestruturação dos setores de coleta, adequações na estrutura existente para receber esse novo serviço, além da divulgação da coleta, visando o aumento da participação por parte da população.
Hoje, três caminhões operam pela coleta seletiva no período da manhã, dois à tarde e um à noite. Ainda segundo a Emdurb, 80% da cidade é coberta pelo serviço e estudos estão sendo feitos para aumentar esse percentual, de acordo com a capacidade de coleta e separação por parte dos moradores.
O JC nos Bairros percorreu os “quatro cantos” da cidade para mostrar como está o hábito da população e o que as pessoas pensam a respeito da coleta seletiva.
‘É preciso fazer algo de bom; deixar alguma coisa para os netos da gente’
O mecânico José Dário Corrêa confessa que o hábito de separar as embalagens recicláveis do lixo é recente. Há cerca de três anos, ele e a esposa tomaram gosto pela prática socioambiental e ele aponta que, inclusive, se preocupam com o consumo consciente de energia e água.
“Começamos a olhar mais para o meio ambiente para fazer algo de bom, deixar alguma coisa para os netos da gente”, relata.
“Seu” Dário vive na rua Carlos Galliters, no Parque São Geraldo.
E por lá, segundo ele, a coleta seletiva não falha. “O caminhão passa toda segunda-feira, pela manhã. Colocamos os recicláveis na calçada e outros vizinhos fazem o mesmo. A maior parte do que é separado é composto por embalagens plásticas, papelão, vidro... Em casa, nada disso é considerado lixo mais”.
‘Separo o lixo há mais de 20 anos e faço até sabão com o óleo usado’
Desperdício é uma palavra cujo significado não entra na casa de Iracema Sanches Ramos, dona de casa e moradora da Alameda Três Lagoas, na Vila Dutra. Até o óleo de cozinha usado ela recicla. “Eu junto e faço sabão. E um bom sabão, viu!”, orgulha-se.
O material reciclável é separado por “dona” Iracema e armazenado em um saco. Caixas de leite, latas de molho de tomate, garrafas de água mineral... Tudo é lavado e, depois, doado para um catador do bairro que realiza a coleta há anos. “Eu não jogo nada. Na lata de lixo, somente as folhas das árvores”.
Com quem Iracema aprendeu a manusear corretamente o lixo que produz? A resposta está na ponta da língua: “Sempre fiz isso, mesmo antes do pessoal começar a falar em reciclagem. Faço há mais de 20 anos.
Eu tinha um restaurante no Centro da cidade e já agia dessa forma, porque não gosto de ver o lixo cheio, precisamos aproveitar tudo o que for possível. Agora, quanto ao caminhão de coleta seletiva, não sei se passa por aqui. Nunca recebi orientações sobre isso. Faço tudo por minha própria iniciativa”, afirma.
‘É preciso orientar mais o cidadão e haver constância na coleta’
Na opinião da dentista Marta Gisele Silveira, moradora da rua Felício Soubihe, Jardim Planalto, o serviço de coleta seletiva tem se tornado mais efetivo a cada dia, porém, ainda falta constância nos dias e horários que o caminhão passa em muitas regiões da cidade. Ela também acredita que, para melhorar, educação ambiental e a conscientização da população são fundamentais.
“Hoje podemos confiar na coleta, ao menos na rua onde eu moro ela tem passado sempre no mesmo dia: às terças, pela manhã. Mas é claro que muitas arestas precisam ser aparadas: é necessário aumentar a educação ambiental para conscientizar os moradores sobre a importância de separar as embalagens recicláveis do lixo molhado, além de mostrar constância na recolha”.
É comum encontrar embalagens espalhadas por calçadas e ruas. Esse é outro ponto apontado por Marta. Ela ressalta que já chegou a parar de separar o lixo. Isso porque as embalagens ficavam na calçada à espera da coleta, que não passava. “Com isso, catadores pegavam uma coisa ou outra e espalhavam o resto. A chuva vinha e deixava a calçada e a rua ainda mais sujas. Mas isso vem mudando. Dá para sentir que estão querendo melhorar esse serviço”, analisa.
‘Nunca vi um caminhão da coleta seletiva por aqui’
Desapontada, a vigilante Micheli de Oliveira diz nunca ter visto um caminhão da coleta seletiva passar na rua onde vive, a Antônio Alcazar, no Núcleo Residencial Beija-Flor. “Sei que a prefeitura passa recolhendo o material reciclável, isso porque eu vejo nos jornais e TV, mas por aqui...”
Embora não tenha esse tipo de coleta em casa, ou ao menos não tenha recebido orientação sobre tal serviço, Micheli diz que faz a sua parte separando as embalagens e colocando-as na calçada para os coletores do bairro.
“Muita gente vive do dinheiro gerado pela venda dessas embalagens. Por isso não acho certo misturar com o lixo molhado. Eu separo, mas acredito que deveria haver mais divulgação sobre os dias da coleta seletiva, assim como acontece com a coleta tradicional. Esse é um serviço importante, significa renda para muitas famílias. E poderia render mais se fosse mais organizado pelo poder público”, opina.