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Condenados à solidão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo". Assim começa Gabriel García Márquez o famoso romance "Cem anos de solidão". Pelo seu final. As lembranças nostálgicas da infância perpassam os livros do escritor colombiano, como a daquele dia em Aracataca, quando seu avô o levou para ver peixe congelado, e assim ter o seu primeiro contato com a pedra que parecia vidro. "Eu a toquei e senti como se ela estivesse me queimando". Autor da biografia "tolerada" de García Márquez, o inglês Gerald Martin comenta sobre Cem anos... que, em vez de um livro sobre a aldeia natal e seus habitantes, o autor elegeu um romance narrado pela visão de mundo daquela gente. Em outras palavras, em vez de destacar Aracataca do mundo, Gabo colocara o mundo todo dentro de Macondo, como denominou a cidade.

A primeira frase de um romance é sempre a mais difícil. Depois, tudo brota como um realismo mágico. Depois da primeira linha (Muitos anos depois...), invisível, baixa o romance inteiro como se o escritor fosse cavalo de terreiro de umbanda. Foram dois anos (1965-66) trancados em casa a escrever. Mercedes, a mulher, teve que lutar para conseguir dinheiro. As reservas haviam acabado. Venderam o carro. Quase cortaram o telefone. Depois começaram a empenhar tudo: televisão, geladeira, rádio, joias, secador de cabelos, liquidificador, aquecedor.

O aluguel e a conta do açougue ficaram na conversa. Quando enfim o livro ficou pronto, quase não tiveram dinheiro para remeter os originais pelo correio ao editor argentino, que concordara em publicar o romance mesmo sem lê-lo. Mercedes comentou: "Só faltava agora o livro não ser bom". Assim nascem as obras-primas. Feitas de inspiração, suor e lágrimas.

Na cerimônia de entrega do seu Prêmio Nobel (1982), Gabo procurou modestamente contar que, sendo ele um sul-americano, não tinha dificuldade de encontrar personagens e enredos para produzir o realismo fantástico, em que foi mestre. E ilustrou sua fala com alguns fatos históricos, ligados a diversos governos do subcontinente, que nada ficaram a dever em extravagâncias e bizarria a suas ficções. Um generalíssimo, quando de sua morte, deixou disposições minuciosas sobre seus funerais: deveria ser velado de uniforme de gala, com suas medalhas, sentado em seu trono - e assim se fez.

Outro patriarca no seu outono, para homenagear-se queria uma estátua equestre, mas não tinha com que pagá-la: seus acólitos compraram uma usada e descartada, em um depósito de Paris, sem se importar de quem fosse o retrato (era do marechal Michel Ney, autor de desastrada carga de cavalaria contra os ingleses, na derrota de Waterloo). A estátua de um perdedor que ninguém quis na França foi instalada na praça com todos os rituais e solenidades. Um terceiro inventou um instrumento em forma de pêndulo para detectar veneno em sua comida. Se fosse brasileiro também não lhe faltaria inspirações, como a do ex-presidente Sarney que se apossou de um convento histórico na capital do Maranhão, para fazer instalar ali o seu memorial e futuro mausoléu.

Somente dois assuntos o escritor colombiano omitiu nos livros. Sua amizade com Fidel Castro e a briga com Mario Vargas Llosa. Eram amigos de fé, camaradas. Nem sonhavam com o Nobel. Em 1976, na Cidade do México, Gabriel García Márquez compareceu à première do filme "Os sobreviventes dos Andes". Ao chegar, Mario Vargas Llosa - que escrevera o roteiro - estava de pé no saguão do cinema. García Márquez abriu os braços e exclamou: "Irmão!". Sem sequer uma palavra, Mario derrubou-o com um soco. Esse se tornaria o soco mais famoso da América Latina, ainda sujeito a ávidas especulações. Dizem que o casamento de Vargas Llosa passou por um momento difícil nos anos 70 e que García Márquez se arvorou para consolar a mulher ressentida e perturbada do colega peruano. Outros dizem que fez isso aconselhando a esposa do amigo a iniciar os procedimentos do divórcio; outros, que o conforto foi mais direto. Agora, somente Patrícia Llosa sabe o que disse ao marido quando os dois se reconciliaram.

Ainda hoje, pelos quatro cantos do território ibero-americano, surpreendemo-nos dentro de uma nova Macondo, ou esbarramos em membros da família Buendía. O velho Gabo se foi, mas ainda haverá de surgir um sucessor brasileiro, a contar as história da cwapital de Pindorama, onde todos são inocentes e todos são cúmplices.

O autor é jornalista e articulista do JC

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