Tribuna do Leitor

1964 - Mitos e Verdades


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Este mês em que se completam os 50 anos do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart muito se debate nas universidades, na mídia e nas esquinas sobre um período da história do Brasil marcado por grandes controvérsias. Sem dúvida, o Regime Militar foi uma época de grande sofrimento para o povo brasileiro, mas o que é verdade e o que não é sobre aquele período? O que os documentos históricos têm nos revelado de novo? Seguem, portanto, algumas informações que talvez não sejam tão comuns assim nas universidades e nos jornais.

Nos últimos anos foram abertos documentos secretos da KGB e da STB (polícia secreta da Tchecoslováquia) onde se encontram detalhes sobre o serviço de desinformação soviético, incluindo listas de nomes de pessoas que trabalhavam para a polícia secreta comunista, lotadas no Brasil durante o período militar. Entre elas, muitos professores universitários, líderes de movimentos sociais e sindicatos, jornalistas e até políticos. Esses documentos também revelam a produção de documentos falsos sobre a intervenção americana no golpe de 64. A tradução de uma parte desses documentos foi recentemente divulgada em um vídeo disponível na Internet, apresentado por um tradutor brasileiro que conhece as línguas do leste europeu, mora naquela região e teve acesso a tais documentos e a trabalhos de historiadores.

Ladislav Bittman, ex-membro do partido comunista da Tchecoslováquia, permaneceu 14 anos no departamento de desinformação da STB. Deixou o partido em 1968. Decepcionado com o comunismo, fugiu para os EUA e em 1985 lançou o livro "The KGB and Soviet Desinformation - An Insider?s View", onde explica os detalhes do plano soviético para fazer os povos latino-americanos acreditarem que os EUA estavam organizando golpes militares no continente. Os jornais e os historiadores brasileiros têm se empenhado em ignorar tais documentos e fatos que comprovam o envolvimento muito maior do bloco comunista do que dos americanos no golpe de 64 e nos anos subsequentes.

Muito se diz sobre a suposta participação da CIA no golpe, mas não há conhecimento de qualquer agente da CIA lotado no Brasil. Os guerrilheiros brasileiros que treinavam em Cuba e na Coreia do Norte já estavam se preparando desde 1961 para implantar no Brasil uma ditadura do proletariado. A tomada de poder pelos militares era, na época, amplamente apoiada pelos brasileiros, pela Igreja Católica, pela OAB, empresários e muitos outros que não queriam ver o Brasil se transformar em uma ditadura comunista.

Na noite de 31 de março para 1º de abril, o Brasil estava à beira de uma guerra civil. Porém, o Golpe Militar foi um sucesso. Colocou as lideranças esquerdistas para correr e houve apenas uma única vítima fatal: o líder comunista Gregório Bezerra, morto por um grupo de militares em Recife. Depois disso, o Brasil passou por anos de relativa paz. O primeiro desaparecido oficial depois do golpe foi apenas em 1967.

Apenas entre os anos de 1968 e 1978, período de vigência do AI-5, o Brasil era de fato uma ditadura. Segundo os próprios militares, o AI-5 foi um "golpe dentro do golpe", pois o plano inicial era que o País fosse devolvido aos civis depois de seis meses.

O número de mortos pelo Regime Militar é de cerca de 400 pessoas (aproximadamente uma morte a cada 18 dias), além de dois mil desaparecidos. Essa é a conta oficial publicada pela Comissão da Verdade no livro "Direito à Verdade e à Memória", disponível na Internet. Devemos considerar que, apesar da brutalidade do regime, muitos desses mortos e desaparecidos eram pessoas envolvidas em crimes como roubos, assaltos à mão armada, sequestros e assassinatos. Muitos haviam treinado guerrilha em Cuba ou na Coréia do Norte e estavam armados para matar ou morrer. Além do mais, esses guerrilheiros também foram responsáveis pela morte de mais de 200 civis inocentes.

Atualmente, morrem mais de 60 mil pessoas por ano no Brasil de forma violenta (mais de 150 por dia). Outras centenas de milhares desaparecem sem deixar vestígios. Uma quantidade mínima desses crimes e desaparecimentos é solucionada, enquanto governo e intelectuais se dedicam a debater e investigar mortes e desaparecimentos de subversivos terroristas de décadas atrás, como se as suas vidas e famílias fossem mais importantes do que as vidas dos brasileiros que morrem e desaparecem todos os dias.

Robert Manduca - professor de história

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