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Vinte anos sem Senna, o heróis dos brasileiros


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Eu estava certo, como em todas as manhãs de domingo, que ouviria o Tema da Vitória. Que ele pegaria a bandeira do Brasil ainda dentro do cockpit, daria uma “volta olímpica” em seu Williams e, novamente, eu sairia correndo pelo quintal gritando seu nome. Teria orgulho de ser brasileiro. Ainda jovem, não sabia o que de tão grave já havia ocorrido naquele GP de San Marino. Não sabia que Senna poderia nem correr.

 

 

Muito tempo depois fui descobrir que naquele domingo, 1.º de maio de 1994, não haveria uma bandeira brasileira. Ele morreu com o pavilhão austríaco no bolso do macacão - ia fazer uma homenagem a Roland Ratzenberger, que no dia anterior tinha se tornado mais uma vítima daquele fim de semana trágico para o automobilismo.

 

Vinte anos. Às 13h40 (horário de Brasília) daquele domingo, a TV Globo anunciou a morte de Senna. “Eu sabia que era como anunciar a morte de um parente próximo de cada um dos brasileiros”, resume Roberto Cabrini, repórter que, por telefone, deu a notícia ainda do hospital de Bolonha, cidade italiana. 

 

O Brasil parou. E chorou.

 

Vinte anos se passaram e a maioria dos brasileiros se lembra exatamente onde estava e o que estava fazendo quando soube da morte do ídolo. Traído por uma quebra da coluna de direção, Senna bateu a 216 km/h no muro de proteção da Curva de Tamburello. Uma peça da suspensão dianteira ainda perfurou como uma lança a viseira do tradicional capacete amarelo. 

O dia que não terminou para muita gente, acabou com Michael Schumacher em primeiro, Nicola Larini em segundo e Mika Häkkinen em terceiro. Não precisa nem ter visto o pódio para saber que foi o mais sem graça da história do automobilismo.

 

Meu pai repetia que “Senna era o Brasil que dava certo”. Sua primeira prova em um carro Fórmula 1 foi em 1984, quando o País saia do regime militar, ia às ruas pelas eleições diretas e vivia patinando para fugir da inflação. Sua última volta foi em maio de 1994, ano do Plano Real, que conseguiu reduzir a instabilidade financeira. 

 

Naqueles dez anos, a vida do brasileiro se resumia a escândalos políticos, crise econômica e insucessos até no futebol - haja vista a Tragédia do Sarriá, na Copa de 1982, e a pífia campanha na Copa de 1990. Mas domingo era dia de acordar cedo, de vibrar com o que dava certo. Ayrton Senna enchia de orgulho os mais velhos e trazia esperança para os mais novos. Ele era o Brasil que dava certo.

 

Senna morreu e isso não tem como mudar. Da mesma forma que não tem como tirar da memória suas ultrapassagens espetaculares, suas pole-positions inacreditáveis, suas vitórias, sua alegria, sua força e sua obsessão pela vitória.

 

Ayrton Senna da Silva foi intenso, carismático e implacável dentro do cockpit. Religioso, ensinou o povo brasileiro que Deus nos deu o direito de vencer.

 

Fim trágico ‘salvou’ a F1

 

“Uma batida desperta coisas dentro da gente que normalmente não existem. É uma batalha interior, uma verdadeira guerra psicológica, uma situação que mexe com a razão da gente mesmo quando se quer controlar a cabeça e os instintos. Acidentes mostram como somos frágeis e um erro, um simples problema mecânico, pode nos deixar abalados mentalmente, fisicamente ou até nos tirar a vida”. Essas palavras, tristemente proféticas, foram ditas por um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, Ayrton Senna, que no dia 1.º de maio de 1994, no GP de San Marino, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, Itália, tornou-se vítima de sua paixão pela velocidade. Os 20 anos que se passaram desde sua morte não foram suficientes para que Senna fosse esquecido. Muito pelo contrário. Seu legado faz parte da rotina da categoria, a começar por um aspecto vital: a segurança dos pilotos.

 

“Basicamente, três áreas foram desenvolvidas depois do acidente do Senna: a segurança dos carros de competição propriamente ditos, o equipamento pessoal dos pilotos e a segurança das pistas”, explicou o médico Dino Altmann, há 24 anos na Fórmula 1 e um dos 16 especialistas da comissão médica da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

 

A tragédia que tirou a vida de Senna, causada por uma série de fatores (entre eles a quebra da barra de direção de sua Williams), serviu para apontar aos especialistas onde estavam as falhas e os riscos nos veículos e nas pistas. Tanto que ele foi o último piloto a morrer em uma corrida de Fórmula 1 (ocorreram posteriormente duas mortes, ambas de fiscais de pista).

 

Entre as inovações surgidas após a morte de Senna - e que poderiam ter salvado sua vida -, estão ideias simples como o Hans (suporte de cabeça e pescoço) e um sistema que impede as rodas de se soltarem. “Em função da consequência dos acidentes, há uma proteção maior evitando aquele tipo de problema. Após 1994, o conceito passou a ser de dentro para fora, ou seja, do piloto para o exterior. O cockpit passou a ser o ponto mais estratégico, onde aumentou muito mais a resistência aos impactos laterais e frontais”, contou Altmann.

 

A opinião é compartilhada por quem está dentro do cockpit. Para infelicidade dos brasileiros, o acidente mais grave no período pós-Senna aconteceu justamente com um compatriota. Em 2009, Felipe Massa, na época defendendo a Ferrari, foi atingido por uma peça da Brawn GP de Rubens Barrichello. Mesmo assim, Felipe ressalta a mudança nas pistas e nos carros. “As condições de segurança melhoraram demais, com a incorporação de materiais mais resistentes e leves, como a fibra de carbono. Tanto que ninguém mais morreu numa corrida. Na China, por exemplo, as áreas de escape são tão amplas que é praticamente impossível bater”.

 

“Com a morte do Ayrton, há uma nova preocupação em relação à segurança da Fórmula 1. Depois do acidente dele, tudo melhorou, desde o atendimento ao piloto até as equipes de resgate”, confirmou o bicampeão da categoria Emerson Fittipaldi. 

 

O Ayrton de Bauru

 

Primeiro de maio de 1994. Ayrton Senna da Silva deixava a vida em um grave acidente que chocou milhões de brasileiros e amantes do automobilismo por todo o mundo. Naquela data, Marineide Oliveira, então com 37 anos, grávida de quatro meses, ainda decidia qual nome daria ao bebê. Foi só próximo ao nascimento, em 7 de outubro, que ela e o marido Dirceu decidiriam por homenagear o maior ídolo do automobilismo brasileiro.

 

E naquele ano, eles foram os únicos em Bauru a escolher o nome Ayrton para batizar um recém-nascido. Pelo menos nenhum outro registro consta nos cartórios da cidade em 1994. “Antes de escolher Ayrton, eu cheguei a pensar em dar o nome Ciro, por causa do Ciro Gomes (ex-candidato à presidência da República), que sempre falou bem”, revela a mãe do Ayrton bauruense. Já o pai não esconde que sempre foi fã de automobilismo, mas especialmente de Senna. “Era difícil eu perder uma corrida. Acordava de manhã para assistir, quando era de madrugada acordava para ver também. O Ayrton Senna marcou muito, dava gosto de ver. Infelizmente depois dele não tivemos mais nenhum brasileiro que vencesse na Fórmula-1”, comenta Dirceu Nascimento, atualmente com 72 anos.

 

Aos 19 anos, Ayrton José Oliveira do Nascimento tem pelo menos um gosto em comum com o xará famoso: a velocidade. “Gosto de andar de kart. A cada dois meses, mais ou menos, a gente junta alguns amigos para correr de kart, o pessoal da empresa onde eu trabalho gosta de ir”, explica – foi exatamente no kart que Ayrton Senna começou sua carreira dentro do automobilismo.

 

Curiosamente, entretanto, Ayrton ainda não dirige pelas ruas. “Cheguei a dar entrada para pagar minha habilitação, mas acabei priorizando outras coisas. Vou deixar para tirar mais para frente”, menciona.

 

Outro time

 

Se a paixão pela velocidade une o Ayrton de Bauru com o ídolo Senna, no futebol as preferências são bem diferentes. O tricampeão mundial era corintiano, e foi até homenageado algumas vezes pelo Timão. Já o Ayrton daqui é são-paulino, e procura sempre acompanhar as partidas do Tricolor. “Eu também sempre gostei de jogar bola, também participo de corridas de rua, gosto de basquete, já joguei um pouco, hoje em dia fico mais assistindo”, diz, referindo-se aos jogos do Bauru Basket. “No futebol eu até cheguei a fazer teste no Noroeste há uns cinco anos, mais ou menos”, diz ele, que é técnico em informática e trabalha em uma empresa do segmento de alumínio. “Na escola, desde pequeno, já perguntavam se era Ayrton por causa do Senna. Às vezes surge o apelido, o pessoal chamava de Seninha, não tem como não lembrar”, argumenta.

 

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