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A força de um boato

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 2 min

A morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, linchada por moradores do bairro Morrinhos, em Guarujá (litoral de São Paulo), acusada de ser sequestradora de crianças após boatos difundidos em página na rede social, revela como o País ainda é atrasado em várias questões relacionadas à cidadania, estado de direito e como a informação deturpada pode levar pessoas à morte.

Talvez a impunidade e o descrédito nas instituições tenham levado a se buscar a justiça pelas próprias mãos sem direito ao processo legal. Por isso é que o incentivo a esquadrões da morte e certa complacência com a polícia em confrontos com criminosos leva à morte de inocentes. O pior é que muitas vezes encontra apoio de jornalistas e certa elite delirante. É o mesmo com a morte do torturador coronel Paulo Malhães, morto em sua casa na Baixada Fluminense, após testemunho contundente na Comissão da Verdade. É preciso apurar o caso, afinal, se for "queima de arquivo", é a comprovação de que a delinquência oficial não acabou com a anistia. Se houve terrorismo no passado, o pior é financiado pelo Estado ainda intocado pela justiça.

Voltando ao caso da dona de casa, diariamente boatos tomam conta das redes sociais das mais variadas formas. O advento da Internet abriu as portas para que a informação tenha mais espaço por meio de páginas eletrônicas, porém o despreparo leva a difusão do boato de suposta bruxa virar verossimilhança em camada incultas manipuladas por "justiceiros midiáticos".

O jornalismo entrou em xeque com a cantinela de que qualquer cidadão pode difundir informação ao bel prazer, mas se esquecem que a credibilidade, a ética, o preparo, necessita de profissionais seja isso na área de Direito, Medicina, Comunicação Social etc. O jornalismo sem preparo também é danoso.

O linchamento é a violência feita por um grupo de pessoas como punição contra um indivíduo acusado de ter praticado algum delito, mas sem o devido processo judicial. Ao que consta, foi o coronel Charles Lynch, que fazia "justiça com as próprias mãos" durante a guerra de independência dos Estados Unidos. Há quem defenda que o termo venha do sobrenome do capitão William Lynch, do Estado da Virgínia, ter mantido, por volta de 1780, um grupo de pessoas que, à margem da lei, punia com morte violenta os inimigos. E claro, as vítimas eram geralmente negros e a população indígena. O cinema americano, por exemplo, recria em vários faroestes tentativas de linchamento de rancheiros, problema grave no velho Oeste, mas os roteiristas enfatizam nos enredos a importância do processo legal.

E lamentavelmente, a barbárie ainda faz parte desse País que achou que chegou ao primeiro mundo após um breve momento de crescimento econômico. Não somos macacos, somos bárbaros. Ou jogar uma privada de uma altura de mais de 30 metros de cima de arquibancada é só ato de vandalismo de torcida como alguns teimam em defender?

O autor é editor regional do Jornal da Cidade

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