Tribuna do Leitor

Pescaria, piranha e poesia


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Recentemente ,a Academia Bauruense de Letras, após um incansável e rigoroso processo de escolha, acolheu em seu panteão novos imortais, entre eles um grande amigo de letras, pescarias e outras gloriosas peripécias desses dois verdadeiros periecos brasileiros O novo integrante desse esquadrão de notáveis, sr. Cláudio, é dono de um recanto aconchegante e aplausível localizado na região do Porto da Manga, no Rio Paraguai. Logo após a travessia feita pela balsa três quilômetros à jusante, os visitantes adentram em um verdadeiro oásis tecnológico, pois aonde os celulares não dão sinal de vida você se depara com uma parafernália de comunicação que lhe coloca de frente para o mundo. Após o glamour da concorrida posse onde o discurso ou uma simples apresentação era verdadeira peça literária, nosso amigo sentiu a necessidade de um refúgio, e o lugar não podia ser outro, entabulou uma ida ao seu rancho de pesca, mas para que o rilex fosse completo, era necessário a companhia de uns amigos, eu inclusive.

De posse das traias básica para a ocasião, partimos rumo ao longínquo Pantanal, fizemos uma parada no rancho do Japonês, em Piraputanga, onde pernoitamos, e na manhã seguinte rumamos para Aquidauana, Miranda, e pegamos a estrada Parque, e lá se foram quase 200 quilômetros de estrada de terra, rios e pontes. Cansados pela refrega da viagem, porém felizes com a beleza do local e a expectativa de boa e divertida pescaria, fomos nos instalando e apossando daquele mundo high-tech que o rancho nos oferecia. Se a primeira impressão é a que fica, aquele recanto pelo conforto, modernidade e disponibilidade de tecnologia é um verdadeiro ?Vale do Silício?. E Claudio fez questão de nos apresentar a tudo de bom que existia ali, e nos dizia sem cerimônia que ali tudo era do melhor e mais moderno. Após uma noite de repouso em dormitórios superequipados e com colchões que nos faziam flutuar, eu já estava convencido de que realmente as coisas ali eram especialíssimas. Apreciei, apressei-me e abreviei meu break-fast, me desvencilhei de tudo aquilo, pois queria mesmo era barranca de rio e vara e anzol na mão. Procurei um lugar tranquilo, fui me espojando no capim e já lançando anzol e isca nas águas do Rio Paraguai. Um minutinho e já puxou, tentei fisgar uma possível piranha e lá vem só a linha, perdi o anzol . Reequipei a vara, lancei novamente e tudo se repetiu. Linha cortada e o anzol foi embora na boca da piranha ou em algum enrosco.

Essa operação de por anzol e perder anzol se repetiu por dez vezes, aí minha paciência de pescador também foi por água abaixo. Visivelmente chateado, Cláudio procurou me dar uma assistência e queria saber o que estava ocorrendo. E eu lhe expliquei que teria perdido dez anzóis consecutivos. No mesmo local em que eu pescava, ele então pegou a minha vara colocou o que seria o décimo primeiro anzol e lançou-o no mesmo poço. Num piscar de olhos ele fisgou e tirou das águas uma grande piranha e veio exibir para mim dizendo que até os peixes por ali eram diferenciados, mostrando a boca da piranha com meus dez anzóis, um em cada vão de dentes, tentando me fazer crer que era uma piranha com aparelho ortodôntico.

Lázaro Carneiro

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