Cultura

Já deixa saudade

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

O telefone tocou e veio a notícia da morte do amigo de mais de 50 anos. Em um primeiro momento, a incredulidade. Logo após, o choque e a tristeza. Assim, o pianista bauruense Amilton Godoy, ex-Zimbo Trio, reagiu à notícia da morte de Jair Rodrigues com quem compartilhou uma vida artística e o companheirismo que extrapolou os palcos e os uniu em uma longa amizade.

“Cair minha ficha demorou quando me ligaram dizendo que o Jair tinha falecido. Porque, quem conhece e conviveu com o Jair, parece que isso não é para acontecer com ele”,  considera Godoy, que conheceu Jair em 1960.

O vazio que fica pela perda do amigo de décadas será ocupado pelas boas lembranças dos anos de convivência. “Lamento a ausência dele, mas guardo no coração as melhores lembranças que tive dentro da música, em função das viagens que fizemos, programas de TV, discos. Sempre a gente tinha algum motivo para estar junto”, relata Godoy.

O pianista lembra o profissionalismo do amigo. “E ele nunca deixou de ser o que era: aplicado, dedicado, responsável, levava muito a sério a carreira. Estava sempre atuante, com novos projetos. Impressionante o exemplo de como o artista tem que comportar em relação à sua carreira”, aponta.

Godoy enfatiza ainda o ecletismo que marcou a carreira de Jair Rodrigues. “Quando ele começou, todo mundo o conhecia como sambista. Daí a pouco, ele faz um disco de valsa e faz um baita de um sucesso cantando serestas”, exemplifica. O bauruense afirma que a formação de Jair veio da noite, quando atuou como crooner em casas noturnas. “Crooner é o cantor contratado por uma casa para cantar com uma banda os mais diversos gêneros. Então, ele tinha esta bagagem”.

O músico destaca a energia positiva que Jair Rodrigues transmitia a quem o cercava. “E além de grande músico, grande cantor, cantando todos os gêneros, valsa, samba, choro, era espetacular de se conviver”.

Intérprete total

O contrabaixista e guitarrista Marquinho Wanderley também salienta o alto astral de Rodrigues como marca do cantor de “Disparada” (“Prepare seu Coração / Pras Coisas que eu Vou Contar”).

“A coisa mais importante para se falar é que ele transmitia muita alegria. Para você ser criativo, não precisa ser carrancudo”, comenta.

“Era intérprete que tinha uma coisa da divisão rítmica, ele dividia a melodia da música de uma forma própria, bem inventiva. Isso é muito importante para o samba, bossa nova e ele tinha isso forte”, comenta.

A faceta “rapper” de Jair Rodrigues também é mencionada por Wanderley. “Ele foi realmente um dos precursores do rap, com aquela coisa do ‘deixe que digam...’ Ele não é o compositor, mas descobriu a música logo que ela foi feita e pegou a linguagem dela. Isso é muito interessante. Muito antes do rap acontecer, ele já estava com aquela divisão quebrada, quase falada”, constata o músico.

Wanderley também frisa que Jair Rodrigues se manteve atualizado, aberto a novidades e experimentações.

“Outra coisa é que sempre somou com os artistas, acessível. E na última fase dele abriu espaço para novos talentos. A banda que tocava com ele era formada por jovens. Ele poderia chamar quem quisesse, só medalhões, mas não, sempre com músicos novos”, conclui.


‘Guardo um abraço’

A cantora e jornalista Audren Ruth Victorio é fã confessa de Jair Rodrigues e lamentou demais a perda do cantor.

“Para mim, é um ícone, sempre foi. Um artista completo”, considera. Victorio tem como lembrança mais marcante o Jair Rodrigues fora do palco.

“A última vez que o vi foi no Alameda (Quality Center). É uma lembrança humana mais do artística. Ele estava almoçando, eu pedi para chegar perto e, quando cheguei, eu não consegui falar, comecei a chorar. Ele representa muito a presença do meu pai, que eu perdi há oito anos. Fui tentar pedir um autógrafo e não consegui. E ele me deu um abraço. Então, o que eu guardo do Jair Rodrigues é um abraço”, relata.

Victorio lembra que o cantor era brincalhão por natureza, mas muito profissional e centrado quando o assunto era música. “Ele era diferente, irreverente, mas muito sério ao mesmo tempo. Quando tinha que falar sério sobre Música Popular Brasileira sabia falar. Era um artista que se renovava, uma pessoa que não tinha resistência ao novo, mas sabia escolher o que colocar dentro de seu repertório”, finaliza.


‘Pra um lugar todinho meu...’

O cartunista Fernando retrata, com seu traço inconfundível, o reencontro de Jair Rodrigues e Elis Regina, sua parceira de TV e dos palcos da vida. Juntos, Jair e Elis também gravaram três discos ao vivo.


Nos braços do povo

Simplicidade, o bom humor e a espontaneidade de Jair Rodrigues foram as marcas que o artista deixou com quem conviveu com ele na ocasião em que o cantor se apresentou no Sesc Bauru, em um dos últimos shows que fez na cidade. “Nós preparamos uma sala vip para ele receber o público após o show. Mas ele falou: ‘onde o público está? Está lá fora? Chega de frescura, quero ir para os braços do povo’.  Entrou no meio da multidão e ficou mais uma hora rodeado. Tirou foto com o todo mundo, abraçou, beijou”, recorda Suamit Barreiro, programador musical do Sesc.

A simpatia, educação e carinho de Jair Rodrigues também impressionaram Barreiro. “Desde o momento em que chegou à unidade, cumprimentando todo mundo sem nenhum tipo de distanciamento, até o momento em que estava no palco e com o pessoal da técnica. No Sesc, ele tirou fotos desde o pessoal da limpeza até a gerência”, comenta o programador. “Até na questão da alimentação. A gente preparou um camarim bem completo e ele disse que não precisava, queria apenas um cafezinho, água e umas frutinhas. Nenhum tipo de exigência”, lembra.

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