Fazer acontecer é uma das maiores virtudes nossas. Imaginar algo, planejar. Imprimir um ritmo, construir. Ajudar na conquista de um bom resultado final. Sentir o retorno de algo assim, bem feito. No capricho. E, então, agradecer.
Mas também é ótimo, de quando em vez, como se dizia, ficar só no gargarejo. Na "buena". No camarote, no buraco da fechadura. De longe, com binóculo. Na mera observação. Torcida. Torcer é um ato realizador também, mas passivo em sua essência. Dá prazer, frustra e dá prazer de novo.
Estamos a poucos dias da Copa. E, seja como for, faz história. Estaremos todos na torcida: uns para que dê tudo certo. Outros, para que dê tudo errado. E outros ainda, encolhidos em seus desejos inconfessáveis, quererão que dê certo ou dê errado, mas sem exteriorizar.
Torcedor é um cargo de expectativa, assim como um vice. Mas gostamos disso. É um momento de êxtase antes da realização. É o olimpo dos esperançosos. Quem não torce, não vibra. Não vibrar é um não sentir. É gostoso sentir e torcer.
Nascemos já sob o estigma da geral e sua torcida de massa. Somos educados para vestir alguma camisa. Eu, a do Corinthians. O que não impede que eu torça, e muito, pela justiça social. Taí um golaço que o Brasil ainda está devendo. E não é só esse.
As reformas que o país precisa pedem mais do que torcida. Pedem cobrança e participação. Você torce pelo cara que ajudou a eleger? Difícil. É normal a gente sequer se lembrar em quem votou na última disputa das urnas. Precisamos aprender que torcer não retira nossa obrigação de fazer. De protagonizar, se não em campo, na hora do voto.
Concretizar a cidadania é um gol que, passada a Copa, cada um de nós terá de marcar. Que seja, dessa vez, de placa. Uma pintura. Que não seja roubado ou impedido. Vale viver por essa torcida.
O autor é editor executivo do JC