Tribuna do Leitor

Cão Tido!


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Meu nome é Tido (nome pouco comum para um cão), um vira-latas como outro qualquer a perambular pelas ruas sem dono. Caminho calmamente por entre papéis e garrafas atiradas ao chão, num amontoado de referências à presença humana. Às vezes me deparo com um corpo inerte, vitima na última madrugada da involução moral humana: uma bala perdida; ciúmes; drogas; dinheiro; preconceito.

Às vezes, não raro, encontro uma camisinha usada atirada (talvez da janela de um carro) na sarjeta ou num canto de árvore, consequência de um tesão avassalador, o qual não se permitiu esperar chegar em casa ou, pior, fruto de um estupro perpetrado por uma mente degenerada, e que acaba por degenerar outra mente. 

Certa vez dormi sobre um jornal no qual estava estampada a estatística de estupros na cidade: 38 em três meses e também a notícia de um filho que tentou estuprar a mãe. E ainda me chamam de animal! Temos algumas semelhanças, nós cães e os humanos: ambos adoramos brincar com bola; fazemos sujeira nas ruas e urinamos nos postes e muros.

Nas madrugadas, enquanto caminho a procura de um abrigo protegido das intempéries do tempo (alguns humanos também fazem isso), costumo ouvir choros vindos através de janelas de casas ou carros; uns altos, outros apenas como sussurros; soluços de tristeza que a cada nova madrugada se fazem mais altos, deperecendo o corpo e a alma. O que será que estes humanos andam fazendo de suas vidas...

Talvez por eu ser tido como irracional não consiga entender estes comportamentos tidos como humanos. Pelas ruas caminho com cuidado por conta dos buracos que as poças d´água escondem. Nas ruas se escondem muitas outras coisas: a vergonha, a pobreza, o choro; e nelas muito também se revela: o choro, a pobreza, a vergonha.

Bem, é melhor aprender com os erros deles para minha própria evolução. Apesar dos chutes e pedradas que me desferem, espero que eles encontrem o melhor caminho neste mundo tido como cão.       

José Reginaldo Furtado

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