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Liberdade preocupante

Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

Não me refiro à liberdade prisional, política, religiosa, de pensamento ou ideias, mas sim à liberdade existencial, de viver a vida, de gozar toda a sua plenitude em um traçado que vai de um presente que sempre existe a um futuro; daquela independência que o ser humano desfruta a partir de certa idade até o final do seu viver. Atenho-me à liberdade de curtir a vida não como gostaríamos que fosse, mas como realmente ela é, em sua plenitude, mas com as incontáveis limitações a que todos nós estamos sujeitos até o seu fim neste planeta. Enfim, à liberdade de comportamento ou vivência humana, considerando-se, no entanto, que o homem não tem a faculdade de apressar, antecipar ou postergar o curso do tempo de sua existência.

Ele tem que passar e viver por tempos ou fases que, em verdade, ninguém pode prever quanto à sua duração. Enfim, refiro-me àquela autonomia tão ambicionada pelo jovem prestes a terminar o ensino médio e que sucederá, queiram ou não os pais, quando após o vestibular passar, a cursar faculdade ou universidade, em sua cidade, outra, muitas vezes em regiões distantes e mesmo até em outros países. Refiro-me àquela liberdade que o adolescente vem esperando há muito tempo, de "não ver a hora de fazer dezoito anos", para sair de casa ficando livre das amarras - marco legal, histórico-cultural - para "conquista de independência" à qual ele deve estar preparado mas que, infelizmente, muitos não estão.

Àquela inebriante soltura de ir e vir sem compromisso de horário para voltar, de dormir e levantar, de fazer o que quiser sem obrigação de justificar, de sentir-se mais comprometido com o colega ou amigo do que com ele próprio, com a sua família. Uma liberdade sem limites, cuja vivência poderá causar-lhe mazelas irreparáveis e que terá que carregar como carga pessoal pelo resto de sua vida, tanto no âmbito familiar, profissional, como no social. Liberdade em que são fatores atuantes, indiscutivelmente, a liberalidade e as más ou superarrojadas e modernas companhias. Quando muitas vezes atitudes, procedimentos, comportamentos nocivos e indesejáveis não partem do próprio jovem, deixando-se influenciar ou guiar "pelo outro". Afinal, o meu amigo leitor poderá questionar a si próprio ou com outro quais os motivos que me levam a este assunto de tão difícil abordagem, por ser muito complexo e intrincado. Questionamento ou ponderação com os quais concordo, pois nós também ansiamos e conseguimos nossa liberdade quando éramos jovens, e que, reafirmo, sempre existiu e sempre existirá. Estime-se, no entanto, que as facilidades e estímulos que há atualmente, tendendo infelizmente a aumentar, não existiam em nossos tempos. Se existiram, porém, não com tanta intensidade e gravidade, como atualmente, com tendência ao agravamento e danos às futuras gerações. Muita bebida e drogas. Reiteradas vezes tenho escrito que as minhas caminhadas ocorrem no alvor do dia com diferentes trajetos, fato que me propicia muitas observações.

Agradáveis como as pessoas humildes que vão para o trabalho, os ônibus circulando lotados, um planeta com o seu brilho divino e mesmo a lua que procuro sempre acompanhar, indo ao seu encalço.

E as desagradáveis e chocantes como o fim de baladas e de noitadas em repúblicas e em determinadas praças públicas com garrafas e copos esparramados e, o mais triste, moças e rapazes embriagados ou dopados encostados às paredes e bancos ou derramados pelas calçadas. E daí? Sim, respeitemos o sagrado e inviolável direito de cada um.

Razão e moderação são atitudes fundamentais. Porém, atrevo-me a indagar. E como será o futuro dessas vidas? Serão sempre jovens?

Concluo ressaltando a importância do papel dos pais no aconselhamento e acompanhamento do que seus filhos fazem e poderão fazer, onde estiveram e onde estão. Difícil? Muito! Talvez sejam tolices tais colocações, alertas ou conselhos, como: a que horas você voltará? Cuidado com as companhias e procure sempre bons amigos. Cuidado com as bebidas e drogas. Gostam de ouvir? Claro que não gostam. Mas falem, gostem ou não, porque no futuro eles agradecerão.

O autor é professor e membro efetivo da ABLetras

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