Tribuna do Leitor

Viajar?


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Outono era para ele uma estação especial. Manhãs de sol brilhante , céu muito azul e um friozinho gostoso. Vento puro, agradável e suave balançava as hastes mais altas das árvores. Jardim iluminado pelas flores multicoloridas, quando um toque de campainha chamou sua atenção. Ao atender recebeu um bom dia do amigo carteiro. Um envelope branco com timbre da empresa na qual trabalhava prenunciava algo de seu interesse. Ao ler o conteúdo foi lembrado de que após trinta dias do recebimento seria aposentado compulsoriamente nos termos da lei. Lacônico!


Tinha consciência de que em algum dia essa notícia seria dada e, em razão disso, não ficou aborrecido, ao contrário, alegrou-se. Afinal, nem todas as pessoas vivem o suficiente para receber uma carta desse jaez. Aposentadoria não deixa de ser um troféu! - A par de um pijama e chinelos sempre à disposição, passou a receber uma enxurrada de outros envelopes, só que agora era de conteúdo exclusivo para o lazer. Viagens, passeios, excursões, convescotes, bailes, jogos de cartas, angariar novos amigos ouvir piadas inteligentes e outras nem tanto, dar risadas dos outros e de si próprio. Argh!!! Tudo isso não fazia o seu jeito de ser. Para quem, como ele, que apreciava da janela avarandada a linha do horizonte nas tardes outonais, tardes onde as nuvens bailarinas modificam-se a cada momento, misturando o rubro do sol dando chances para o abraço das cores violetas e rosas no deslumbrante entardecer... Neste cenário panorâmico não seria fácil trocar aquela visão maravilhosa do crepúsculo para um novo ritmo de vida fora do seu ambiente. Olhava as ofertas, ouvia os festeiros, mas reconhecia estar ainda seguro nas presilhas da falta de costume. Um seu amigo de longa data segredou-lhe que os pássaros engaiolados não se esquecem da arte de voar e que os humanos não podem perder a arte de sonhar. Ficou no batuque... Ruminando a sugestão lembrou-se do tempo em que estudava história geral e história do Brasil. Os livros retratavam belas paisagens, monumentos, figuras históricas, o mundo antigo e o mundo moderno e tudo isto era mais uma vez exaustivamente mostrado nos folhetos turísticos. Inebriado pela maravilhosa tarde outonal recostou-se à cadeira de espaldar alto, fechou os olhos e em devaneios viajou pelos caminhos da imaginação.


As belezas do mundo e da natureza já habitavam em suas memórias. Em sonho sentia-se como os pássaros livres, que pelas manhãs voam para qualquer lugar, independentes de guias/itinerários, e, ao entardecer, retornam ao acolhimento das prediletas árvores. Ali, onde se encontrava estava junto da família, das lembranças dos filhos distantes, dos demais queridos, do jardim e das flores na casa grande cultivando o amor. Aposentadoria não era tão ruim assim... Bastava acordar, abrir o coração e não viajar para lugar nenhum.

Roque Roberto Pires de Carvalho

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