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O mercado está estranho

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

A avaliação de boa parte dos profissionais que operam o mercado é: está estranho. Esta constatação tem como fundamento a leitura que o desempenho das empresas está aquém do potencial existente. Ouço reclamações do comércio que se não trabalhar permanentemente em liquidação não consegue desovar seus estoques. O setor de veículos novos efetua vendas, mas derruba margens, oferecendo juros zero, IPVA quitado e outras vantagens para atrair o consumidor. As garagens que revendem veículos usados estão lotadas.

Setores de doces, chocolates e produtos afins não conseguem cumprir as metas estabelecidas. O mercado imobiliário sentiu a diminuição do apetite dos interessados pelas aquisições e somente não há desempenho pior à medida que o crédito imobiliário ainda alavanca os negócios. Isso para citar alguns setores. Não há nestas observações pessimismo, mas são indicativos de que o mercado está em compasso de espera.

Uma forma de constatar como as coisas estão funcionando é analisar o comportamento dos bancos comerciais. Invariavelmente ouço os representantes das instituições financeiras dizer que estão sem apetite. Querem dizer: há aversão ao risco neste momento. Se as empresas precisam de recursos, os juros são maiores e são exigidas garantias que vão além do simples aval dos sócios destas empresas. É como se o banco dissesse: esperamos o pior ou ainda não esperamos cenário benigno daqui para frente.

Há motivos para todo este estranho comportamento dos agentes econômicos? De certa maneira as questões macroeconômicas não estão alinhadas com o desejo do mercado. Há exemplos de variáveis que levam a insegurança de quem opera o mercado. A inflação continua desafiadora. Já há leituras que o limite da meta de 6,5% ao ano será ultrapassado. Surgem notícias de represamentos de aumentos de tarifas públicas e isso gera maior desconfiança de quando esta conta será cobrada e qual será o efeito na economia ali na frente.

Inflação em alta é indicativo de juros mais elevados. As apostas para virada do ano estão na casa dos 12,25% para a taxa básica. Juros mais elevados, maior engessamento da economia. Mesmo com uma pequena elevação nas previsões dos operadores do mercado (divulgadas recentemente pelo Banco Central), estamos falando de crescimento econômico abaixo de 1,5% para este ano.

As contas públicas não fecham. Não há excedentes para investimentos. Os gargalos da economia estão se evidenciando, notadamente em setores estratégicos como o energético e de infraestrutura básica como transportes, por exemplo.

Isso tudo em ambiente de Copa do Mundo e eleições presidenciais. Combinação perversa para a economia. Com tudo isso jogamos a toalha? Evidentemente que não. O Brasil possui um mercado potencial. Na prática, o cenário atual exigirá de todos nós maior determinação, capacidade de contornar problemas e, acima de tudo, estabelecer estratégias no caminho correto. O mercado pode estar estranho, mas cada um sua área deverá fazer a diferença. É hora de muito trabalho, mas com muita sintonia com os sinais do mercado.

O autor é economista e articulista do JC

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