Polícia

Tentou furtar e quase foi linchado

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Uma situação bastante vista no País e registrada também em Bauru. Cansados após alegar que um mesmo homem cometeu vários furtos, um grupo de populares resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Emerson Jesuita de Oliveira, 29 anos, foi agredido, ontem à tarde, no Jardim Bela Vista, em Bauru. Ele teria tentado furtar um veículo na região, mas foi flagrado pelo proprietário e seu amigo, que o perseguiram. O homem fugiu, pulando muros e telhados de residências próximas, quando caiu e foi surpreendido pelos moradores.

De acordo com André Luiz Pavan dos Santos, tenente da Polícia Militar (PM) de Bauru, Oliveira já havia invadido várias residências da região para subtrair objetos, tendo, inclusive, já passagem por furto. Porém, o fato que culminou na agressão em massa seria a tentativa de extravio do carro ontem. “Apenas um homem confessou a agressão à polícia. Eles foram encaminhados à Central de Polícia Judiciária (CPJ)”, explica. Renan Branco Misson, 27 anos, confessou a agressão.

Quando os militares chegaram entre as ruas Padre Anchieta e Tomé de Souza, por volta das 14h, Emerson estava sentado no chão com diversos ferimentos. Ele levou socos e chutes, principalmente, na região da cabeça.

Os policiais acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que o encaminhou até o Pronto-Socorro Central (PSC), onde está internado em observação. “O indicado é que a população nunca faça justiça, porque existem autoridades instituídas pelo Estado para atuar”, orienta o tenente.

Para o delegado plantonista Marcos Jefferson da Silva, responsável pela ocorrência, uma segunda pessoa teria agido em conjunto com Emerson durante a tentativa de furto do carro, mas fugiu e ainda não foi identificada pela polícia.

Diante disso, o agredido foi indiciado e preso como autor de tentativa de furto duplamente qualificado, (arrombou a porta do veículo e agiu em concurso de pessoas).

Agressão

Além de ser o autor da tentativa de furto, Emerson também foi vítima de tentativa de homicídio, conforme registrado em boletim de ocorrência.

O proprietário do carro ainda será ouvido pela polícia, mas, preliminarmente, foi apurado que ele não participou das agressões. Já o amigo dele, Renan Branco Misson, 27 anos, confessou o crime e foi indiciado como autor de tentativa de homicídio e será preso. O delegado plantonista acrescenta ainda que a polícia trabalha para identificar os demais agressores. “Neste caso, nós vamos agir com rigor máximo para evitar que as pessoas se acostumem com esse tipo de atitude”, finaliza o delegado.

20 pessoas

Testemunhas afirmam que cerca de 20 pessoas teriam agredido o homem. Quando fugia dos dois amigos que o estavam perseguindo, Emerson Jesuita de Oliveira andava pelo telhado da residência de Karol Mara Mello, localizada na quadra 17 da rua Padre Anchieta, no Jardim Bela Vista, caiu e foi surpreendido por populares, que deram início à agressão.

No portão da casa, estavam as marcas dos passos de Oliveira, que subiu por lá para chegar até o teto, cujas telhas foram encontradas fora do lugar.


‘Sem credibilidade, Estado passa por uma epidemia de linchamentos’

O antropólogo Claudio Bertolli Filho afirma que o fato ocorrido ontem é um sintoma.  Ele acrescenta que os linchamentos são comuns em locais mais isolados, onde a atuação das instituições é fraca. Porém, quando o ato ocorre em outros espaços, esse tipo de atitude se justifica pelo fato de o Estado estar ausente. “Os populares estão em um momento de descrença diante de todas as instâncias do Estado e, com isso, procuram fazer justiça com as próprias mãos. Sem credibilidade, o Estado passa por epidemia de linchamentos”, frisa.

Ele retoma os casos mais recentes, como o ocorrido no Guarujá e em Araraquara.

O antropólogo e professor da Unesp afirma que muitas pessoas consideram os linchadores como justiceiros, mas no sentido positivo da expressão. Diante disso, elas procuram fazer o mesmo.

“Na sociologia, usamos o termo ‘imitação’ para explicar esse tipo de adesão das pessoas às agressões em massa, outro motivo que poderia desencadear essa epidemia dos casos”, conclui.

 

Éder Azevedo

Emerson foi atingido com socos e chutes, principalmente, na cabeça

Autor e vítima

Emerson Jesuita de Oliveira negou todas as acusações para a reportagem do JC. De acordo com o homem, ele estava voltando do trabalho, quando tentaram furtar um veículo nas proximidades.

“Eu sou usuário de crack. Dei um trago e saí correndo por medo que me pegassem. Quando corri, começaram a me perseguir. Por isso, passei pelo telhado da casa”, conta. Oliveira afirmou ainda que é casado, tem seis filhos e usa crack há 15 anos.

Os moradores do Bela Vista contestam a versão dele. Karol Mello, que encontrou Emerson caído

Karol Mello mostra o telhado destruído pelo homem durante a fuga

em seu quintal ontem, alega que o homem perambulava pela vizinhança e, na semana passada, teria tentado invadir a casa dela.

“Há uma semana, ele chegou a forçar o portão, porque pensou que a casa estava vazia. Quando acendemos a luz da garagem, ele fugiu. Nós não acionamos a polícia, porque pensamos que ele não voltaria mais. Contudo, hoje eu o encontrei caído em frente à minha casa, depois de correr pelo telhado”, complementa a moradora.


 

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