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O medo de mudar

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Muita gente deve se lembrar do depoimento gravado em 2002 pela atriz Regina Duarte manifestando medo sobre a possibilidade de perda dos ganhos do Plano Real se Lula, candidato do PT, se elegesse. O candidato a assegurar a continuidade dos projetos econômicos que debelaram a inflação era José Serra. Neste mesmo espaço defendi, na ocasião, o direito do Partido dos Trabalhadores de se capacitarem a governar o País, sem temores.

O Brasil já havia amadurecido o suficiente para saber que avanços são ganhos da sociedade e precisam ser vistos como políticas de estado, não como gestos de boa vontade de um ou outro governo. Agora, causa surpresa o fato do PT estar fazendo uso, na sua propaganda política, do mesmo discurso do medo utilizado pelos seus opositores, no passado. A estratégia consiste em sugerir ao eleitorado que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos podem ser suprimidas caso mude o governo. A falta de ética na política dá por lícito alardear as qualidades próprias do candidato e tentar desqualificar o adversário. É inaceitável, porém, que quem está no poder aproveite essa fase para tentar vincular candidatos oposicionistas ao risco da adoção de medidas impopulares. Com essa fórmula do medo correríamos o risco de polarizar o discurso da campanha numa disputa de classes. De um lado os 40 milhões de beneficiados com os programas sociais e, na outra banda os "ricos", os "oligarcas" que querem tirar dos pobres o que lhes foi dado.

O que as pessoas de bom senso esperam da campanha eleitoral é que ela se transforme num grande fórum de discussão em favor do fortalecimento de todos os ganhos dos últimos 20 anos - econômicos, fiscais e sociais. O eleitor consciente quer propostas e ideias em lugar do ataque gratuito a pessoas que iriam - no discurso - trazer de volta "fantasmas do passado". Do jeito que vai, a tendência desta campanha presidencial é escorregar para o terreno das ofensas individualizadas e temores subjetivos. O que interessa são os grandes temas que tirem o País do crescimento pífio; as questões objetivas que façam o país avançar.

Em 2002, essa maneira apequenada de fazer política eleitoral operou em sentido contrário. O povo elegeu, sem temores a Luiz Inácio Lula da Silva. A inflação se manteve sob controle e o Brasil ganhou prestígio internacional diante da crise global. Claro que a "marolinha", aqui, chegou mais forte do que a anunciada, mas resistimos, pelo menos. Agora, achar que os tupiniquins nem se importam de não ter metrô para os estádios de futebol - "vai a pé, descalço; vai de bicicleta, vai de jumento, vai de qualquer coisa" - já supera a "babaquice".

Cabe um desconto. Essa política de espalhar temores faz parte da beligerância eleitoral até mesmo nos países ditos "adiantados". Nos Estados Unidos é até uma estratégia "cultural" nascida em 200 anos de polarização entre democratas e republicanos. Com uma diferença: lá o discurso negativo tem outro objetivo, o de convencer, pelo medo, o comparecimento às urnas já que o voto não é obrigatório. É como se os candidatos tentassem aterrorizar: "ou você vai votar ou não poderá se queixar, no futuro, da queda do seu padrão de vida". Outro objetivo importante é aliciar o que eles chamam de "swing voters". Os americanos não dão muita bola para a política e só decidem em quem votar quando se dirigem às sessões eleitorais. Esses indecisos formam o maior contingente nas pesquisas de intenção de votos e só será eleito quem conseguir assoprar na orelha desses indecisos: "eu sou o cara!"

Aqui, existe uma compulsão à repetição, no conceito freudiano. Tem seu lado bom e o ruim. Existe o repetir criativo, expansivo do conhecimento em qualquer disciplina e no aprender a viver a experiência humana. Há também a repetição a serviço da mesmice, da compulsão a repetir por repetir, ou para criar um automatismo mental na sociedade, e não para crescer, desenvolver e progredir. Esta é a "morte psíquica" na teoria de Freud. Aqui não se aprende. Aqui a repetição fica a serviço da rigidez, da manutenção do status quo como um modo de impedir ideias novas.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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