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Aline (nome fictício) viveu uma verdadeira reviravolta em sua vida em 2012. Aos 40 anos e sem poder ter filhos, ela e seu marido resolveram adotar. Após longa espera na fila de pretendentes – já que a preferência era apenas por uma criança de até 5 anos - eles optaram por abrir mão da escolha para formar uma família como pais de dois irmãos biológicos de 5 e 9 anos, até então abrigados.
De assistente administrativa ela virou dona de casa. Mas a história não é simples como parece e a falta do estilo de vida “liberto e independente” fez com que ela procurasse ajuda na intenção de devolver os pequenos. Atualmente, a família passa por uma terapia e Aline diz ter desistido da devolução.
Apesar da expectativa de um final positivo, a experiência do casal remete à uma triste realidade observada nos últimos anos em Bauru. Do total de adoções no Fórum, entre 2012 e 2013, ao menos 10% das crianças foram devolvidas pelas famílias pretendentes ainda no estágio de adaptação.
Outros três casos, que não entram nos números oficiais, envolvem adolescentes entre 12 e 14 anos adotados ainda quando crianças, que foram submetidos à devolução por seus pais adotivos, nos últimos meses (veja mais no quadro). Neste domingo, é comemorado o Dia Nacional de Adoção.
Queixas
Entre as queixas mais comuns feitas pelos pais adotivos como motivos para a devolução dos filhos aos abrigos estão situações como: a falta de conversa, a desobediência e a escolha de um certo estilo de roupa, música ou de religião, que não agrada a família.
Os dados obtidos pelo JC foram levantados junto ao setor técnico da Vara da Infância e Juventude. Psicóloga responsável pelo cadastro local da adoção, Lúcia Maria Rodrigues de Almeida, aponta que a situação tem motivado mais rigor na avaliação dos pretendentes que chegam ao Fórum. “A adoção é irreversível, mas, infelizmente, assim como pais biológicos que abandonam seus filhos, pais adotivos também o fazem, principalmente, na fase da adolescência, geralmente por algum problema no comportamento do filho”, aponta Lúcia.
Sem punição
Outro dado que chama a atenção é que, da totalidade de crianças rejeitadas ainda na fase de convivência, mais de 90% dos filhos devolvidos possuem idade acima de 5 anos, exatamente a faixa etária preterida no cadastro de adoção, conforme o JC mostrou em reportagem ampla sobre o assunto publicada na edição do dia 10 de maio.
Juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, reforça que, legalmente, não há como punir pais adotivos pela devolução dos filhos durante o processo de adaptação, mas que, em um futuro próximo, ele enxerga essa possibilidade no meio jurídico.
“De concreto, o que temos agora é apenas a punição prevista para os pais que já tiveram o processo da adoção finalizado. Ao abandonar o filho, eles podem responder pelo abandono material, dano afetivo, serem submetidos à uma ação de alimentos e terem que pagar pensão e ter até o pátrio poder destituído, assim como ocorre com os pais biológicos que abandonam”, completa Maintinguer.
Devolução pode causar traumas muito graves
Surto psicótico, uso de drogas e até mesmo suicídio. São vários os exemplos de problemas que podem surgir na vida de uma criança ou de um adolescente após o trauma de uma rejeição.
Psicóloga responsável pelo cadastro de adoções no Fórum, Lúcia Almeida, aponta que não há registros do tipo em Bauru, mas que a exposição da criança ou do adolescente a uma segunda rejeição, após o trauma já vivido com a família biológica, pode acarretar sérios problemas.
“A criança por si só já possui uma fragilidade por não ter ficado com a família biológica. Uma segunda rejeição é ainda mais danosa, pois ela acaba achando que o problema está nela”, ressalta Lúcia.
Ajuda
Com objetivo de contornar as devoluções e de desmistificar outros assuntos referentes à adoção, um grupo formado por três amigas - duas psicólogas e uma cientista social - e um advogado criaram, em novembro do ano passado, em Bauru, um grupo de estudos e apoio à adoção: a Associação Regional Flor de Lis.
A entidade tem ligação direta com o setor técnico do Fórum e recebe encaminhamentos de pretendentes à adoção, presta atendimento psicossocial a famílias adotivas com problemas de convivência e às crianças traumatizadas.
“Muitas pessoas idealizam o filho perfeito e, depois, acabam se frustrando se a criança se desenvolve e não corresponde àquelas expectativas. Atendemos muitos casos de devoluções e, na maioria das vezes, conseguimos reverter”, ressalta a coordenadora da entidade Jociara Araújo, ao lado das psicólogas Sylvia Gonçalves e Aline Manso. Os atendimentos são gratuitos e realizados pela entidade, de segunda à sexta-feira, das 9h às 17h. A associação fica na rua Paes Leme, 6-40, no Higienópolis. O telefone é (14) 3208-0178.
Carlos Jasso/Reuters |
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Mais de 90% dos filhos devolvidos possuem idade acima de 5 anos, exatamente a faixa etária preferida no cadastro de adoção |

