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Entrevista da semana: Deoclides Jerônimo

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Ele é porteiro de casas noturnas de Bauru há mais de 30 anos. Sempre elegante e solícito, Deoclides Jerônimo empresta sua sabedoria e os sorrisos de seus 75 anos de idade para a entrevista de hoje. 

 

Com as décadas de trabalho na madrugada, ele já viu um pouco de tudo e acompanhou mudanças de comportamento de gerações. Atualmente, toda quinta e sexta-feira ,“seu” Deoclides abre as portas do Sampa 27-28. “Na noite também fiz muitos amigos. Isso é uma alegria para mim. As pessoas me conhecem e me chamam pelo nome. Até quando eu viajo eu encontro gente que conheci na noite”, aponta. 

 

Casado há 52 anos com Maria Aparecida, com quem tem duas filhas e três netos, o entrevistado de hoje faz questão de mostrar o quanto ainda é apaixonado pela esposa, além de falar sobre os segredos para manter um relacionamento feliz: “Estamos casados há 52 anos. E, minha Nossa Senhora, ela tem tudo o que é bom em uma mulher. Depois de mais de meio século ao lado dela, ainda sou apaixonado. E como sou! Depois que casa, a pessoa tem um compromisso também com o outro. É preciso deixar de pensar que é somente ela quem faz, quem manda... Para se dar bem, é preciso ser um conjunto”, aconselha. Leia mais, a seguir. 

 

Jornal da Cidade - O senhor trabalha há quantos anos como porteiro e segurança de casas noturnas?

Deoclides Jerônimo - Ah, há muito tempo. Acho que já tem uns 34 anos. Somente com o João Cabreira faz 28 anos. Eu sou aposentado pelo IPA. Comecei a trabalhar lá aos 14 anos de idade, onde havia uns guardas que faziam bico de segurança em casas noturnas. Em uma daquelas manhãs de rotina, eu cheguei para trabalhar e um deles fez uma brincadeira comigo quando eu estava picotando o cartão. Não gostei daquilo. E, naquele tempo, meu juízo era pequeno (risos). Não consegui almoçar e não passei o dia bem, tanto que o pessoal da cozinha foi até onde eu estava para ver o que estava acontecendo comigo. Bom, na saída, encontrei com o fulano e o derrubei  com um soco. No dia seguinte, ele veio me pedir desculpas. Ficou tudo bem. Entretanto, dias depois, ele veio até mim novamente e perguntou se eu gostaria de fazer bicos como segurança em uma boate onde ele era chefe da segurança. Virou meu amigo. Fui e não parei mais de trabalhar na noite. Meu primeiro emprego nessa área foi na antiga Ciente, um centro de convivência dos universitários.  

 

JC - Por quais casas noturnas o senhor já passou?

Deoclides - A primeira foi a Ciente e depois veio a 3 por 4. Em seguida, passei a trabalhar nas boates do João Cabreira: Camarim, Cachaçaria, Tequila, Maria Bonita, Carmem, Vila Madalena, Havana, Live, Stage... Agora, Sampa.  Hoje eu trabalho duas vezes por semana: nas quintas e sextas.  Uma curiosidade é que eu cheguei a barrar a entrada do João em uma das primeiras boates em que trabalhei, por ele ser menor de idade na época. Até hoje ele fala sobre isso (risos). 

 

JC - O senhor já deve ter visto de tudo na noite...

Deoclides - Eu comecei trabalhando na portaria e, na noite, a gente vê de tudo mesmo. Algumas coisas absurdas, outras engraçadas. Quando eu estava começando na madrugada, por exemplo, na Ciente, havia uns critérios para que os estudantes entrassem. Em uma noite, um rapaz conhecido como “Zé Louco” chegou e, como não podia entrar, juntou alguns amigos que seguraram a roleta, forçando a entrada. Nós a seguramos do lado de dentro. Conclusão: foi um puxa daqui e puxa dali, que a roleta saiu com cimento e tudo (risos).       

 

JC - O que mais se vê na noite?

Deoclides - Já vi muitas brigas. Uma vez, fui parar na delegacia como testemunha. Mas, a maior parte dessas confusões, vem de gente que bebe demais. E muitas vezes por causa de mulher (risos). Muitos não respeitam as moças. Mas nunca vi problemas mais sérios.    

 

JC - O senhor já viu o comportamento de várias gerações de jovens se divertindo.

Deoclides - Já, sim. E muita coisa mudou, viu. Antigamente, a moçada respeitava bem mais as pessoas, inclusive entre eles mesmos. Ultimamente, não. Eles me respeitam porque eu sou sério. Às vezes, a gente escuta uma coisa ou outra, mas na minha cara nunca houve desrespeito. 

 

JC - O senhor fez muitos amigos na noite?

Deoclides - Muitos mesmo. Isso é uma alegria para mim. As pessoas me conhecem e me chamam pelo nome. Até quando eu viajo eu encontro gente que conheci na noite. Eu gosto muito desse trabalho, mas não estou querendo trabalhar mais, sabe. Acho que já está na hora de me aposentar de verdade, mas o João Cabreira não está deixando (risos). 

 

JC - Por que a “nota 10” para a esposa?

Deoclides - Porque ela é perfeita. Estamos casados há 52 anos. Ela era menor de idade quando nos casamos, tinha 16 anos. E minha sogra não queria deixar, mas o pai e o irmão mais velho dela disseram que de nada adiantaria porque nos casaríamos de qualquer jeito. E ela assinou a autorização (risos). Temos duas filhas e três netos. E, minha Nossa Senhora, ela tem tudo o que é bom em uma mulher. É companheira, compreensiva... Depois de mais de meio século ao lado dela, ainda sou apaixonado. E como sou!

 

JC - As caminhadas fazem parte da sua receita para ainda trabalhar na noite aos 75 anos de idade?

Deoclides - Sim. Eu acordo cedo e faço caminhada todas as manhãs. Quando trabalho, chego em casa por volta das quatro horas da manhã. Às sete, já estou caminhando. Isso me ajuda na saúde, na cabeça. Eu já fiz cirurgia no coração: tenho duas safenas e uma mamária. E, graças a Deus, estou inteiro. E trabalhando. Cheguei a duvidar que escaparia. 

 

JC - Um sonho.

Deoclides – Eu realizei o meu maior sonho há muito tempo. Sempre sonhei em me casar, ter filhos e me dar muito bem com a minha família. Infelizmente, meu pai não foi um homem muito bom. Ele era muito rígido e pouco caseiro. Desde moleque eu trago essa ideia de família unida em mim. Eu era o caçula e sofria com a minha mãe. Fiz tudo diferente dele. 

 

JC - Qual é o recado que o senhor deixa para os jovens casais?

Deoclides - É preciso acreditar que, a pessoa depois que casa, tem um compromisso não só com ela, mas também com o outro. O homem precisa deixar de pensar que é somente ele quem faz, quem manda... Nada disso. Para se dar bem, precisa ser um conjunto. Eu falo isso porque sinto isso no meu coração.  

 

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