Tribuna do Leitor

Conta-gotas


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"Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!"

(Meus Oito Anos ? Casimiro de Abreu (1839/1860)

"Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. O Criador começa e a criatura acaba a criação de si própria".

(Oração e Trabalho ? Rui Barbosa ? 1849/1923)
Prosa e poesia. "Meus Oito Anos" é poesia. "Oração e Trabalho" é prosa. A poesia é lúdica, carregada de emoção. A prosa por quem sabe escrever, tendo o que dizer, é uma sequência de opiniões sempre presentes na dissertação. A prosa convence-nos. A poesia encanta-nos.

A poucos dias da décima nova Copa do Futebol, lembramo-nos dos conceitos envolvendo Poesia e Prosa. Têm, sim, muito a ver com o futebol. Poderíamos dizer que a Copa de 1958 foi uma poesia plena de emoção. Gilmar, Newton Santos, Didi, Garrincha, Pelé. O Brasil sofre o gol. Os jogadores assustam-se. Menos Didi! Toma a bola e dirige-se ao centro do gramado, ordenando: "vamos ganhar". Deveria, sim, haver um fundo musical para marcar o compasso das jogadas, e irreverência de Garrincha, o desempenho do menino Pelé. A Suécia viu; o mundo viu a bola imantada em poesia dançando sobre o gramado, de pé em pé, num bailado frenético, mágico, num hino de deslumbramento. Enfim, o Brasil ensinava a arte de jogar! Sucederam-se, de quatro em quatro anos, outras Copas. Novas técnicas. Outro estilo de jogo. O importante não é encantar, mas convencer. A prosa substitui a poesia. Assim será nossa Copa. Quase certa a vitória. Mas uma vitória destituída de emoção, que é o condimento que encanta. A Copa de 1958...

"Oh! Que saudades que tenho"...

Álvaro Baptista Pontes

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