Política

Monti: "Não sou o Harry Potter"

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

Secretário reconheceu problemas, mas disse não entender motivos para ressurgimento do debate

O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, abusou da retórica em audiência pública realizada ontem à noite, na Câmara Municipal, para discutir, entre outros assuntos, a defasagem de médicos e profissionais. O gestor da pasta afirmou que não é o Harry Potter – famoso jovem bruxo da literatura e do cinema – nem possui varinha mágica para resolver o problema.

Ele reconheceu a existência do déficit, cujas preocupantes consequências foram relatadas por profissionais do setor de urgência e emergência, em reportagem publicada na última segunda-feira pelo Jornal da Cidade. “[Falar na defasagem] é requentar o que já vínhamos falando para a imprensa”.

Monti lembrou que, quando da inauguração da primeira Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no Mary Dota, avisou que a Secretaria de Saúde precisaria contratar mais 800 servidores para completar a demanda que seria gerada pela expansão da rede de urgência. “Criamos, por lei, mais de 400 cargos, mas não conseguimos chamar todos. Isso é um processo”.

Para explicar a limitação nas contratações, o titular da Saúde citou que, no ano passado, a pasta já consumiu 25% do orçamento municipal, sendo que 71% desse dinheiro foi destinado à folha de pagamento, ultrapassando o limite de 54% imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Segundo Monti, entre 2011 e 2014, o gasto com salários da rede de urgência e emergência saltou de R$ 1,6 milhão para R$ 3,6 milhões ao mês. Só com os médicos, a despesa saltou para R$ 680 mil, cujos salários médios são, atualmente, de R$ 16 mil.

“Por qual razão um secretário, se tivesse condições, não dotaria o sistema de funcionários e garantia o atendimento rápido?”, questionou. Em seguida, Fernando disse estar aberto a boas sugestões, argumentando, inclusive, que seu cargo está, constantemente, à disposição do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB).

UPAs

Após questionamentos do presidente do Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central (PSC), o secretário de Saúde endureceu o discurso, com tentativa, inclusive, de desqualificar a representatividade do representante da sociedade civil. Monti perguntou se o governo municipal deveria ter abdicado da construção das quatro UPAs em Bauru.

Segundo o gestor, a defasagem de profissionais na urgência e emergência foi maximizada pela inauguração dessas unidades. “Eu sabia que, com elas, teríamos essa dificuldade. Mas a solução seria não fazer as UPAs?”, pontuou, retoricamente.

Lima Júnior (PSDB) colocou o mérito das consequências da iniciativa em xeque. Monti, por sua vez, lembrou que, com as novas unidades, o número de atendimentos na urgência e emergência cresceu 37%; e aliviou, em 48%, a demanda do Pronto-Socorro”.

O impacto das UPAs se estende também ao custeio. Os repasses federais para a operacionalização dessas unidades cobrem apenas os gastos de 24% da folha de pagamento.

Diálogo

O secretário reclamou que não há, hoje, um grupo organizado que represente a categoria dos médicos que viabilize canal legítimo de diálogo. “Não há interlocutores. Há os colegas que falam por si ou por pequenos grupos. O sindicato dos servidores não é bom representante desse segmento específico”, pontuou.

Monti lembrou da proposta da secretaria para reduzir de 20 para 15 horas semanais a jornada dos médicos da rede básica e ampliar os vencimentos dos profissionais da urgência. Não há prazo, porém, para projeto de lei ser enviado ao Poder Legislativo. 


Procura por urgência é quatro vezes maior

Existem em Bauru, hoje, 23 unidades de saúde da rede básica, incluindo o Programa Saúde da Família, e apenas cinco de urgência e emergência; essas, funcionando 24 horas por dia. Apesar da grande diferença quantitativa, o número de atendimentos no Pronto-Socorro e nas UPAs é quatro vezes maior que nas demais unidades.

Entre janeiro e abril de 2014, 36.952 adultos foram atendidos por clínicos gerais na rede básica. Na de urgência e emergência foram 140.696.

Médico, o vereador Raul Gonçalves Paula (PV) apontou, sem dúvidas, que não houve, no município, toda essa demanda por consultas que se caracterizam tecnicamente como de urgência ou emergência.

“Essas pessoas procuram as UPAs e o Pronto-Socorro porque não conseguem agendar consultas na rede básica de Saúde. Para alterar essa lógica, o município precisa por a mão no bolso. Não tem outro jeito”, pontuou.

Lima Júnior (PSDB) também criticou a priorização da rede de urgência em detrimento à atenção básica. “O Programa Saúde da Família, apontado como essencial pelo secretário de Saúde, não foi expandido”, citou.

Fernando Monti alegou que os profissionais que chegaram à cidade por meio do Mais Médicos – que são 17 – vão atuar de forma articulada à Saúde da Família. “Só esse incremento já dobra o que vínhamos fazendo”.

O governo local promete maior expansão do PSF por meio da Fundação Regional de Saúde. A expectativa é de que a entidade passe a funcionar no segundo semestre desse ano.


Complô

Fernando Monti ratificou também a declaração do diretor do Departamento de Urgência e Emergência, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, de que existiria, entre médicos da rede, um plano articulado para desestabilizar

a administração.

“A maioria dos funcionários sua a camisa, mas não vamos nos enganar: tem gente que conspira. A maior reação é à organização. Para algumas pessoas, a desorganização interessa”, respondeu ao vereador Roberval Sakai (PP).

O gestor da Saúde municipal disse ainda que não houve um fato específico que tenha potencializado os problemas com déficit de pessoal nos últimos meses para justificar a exposição do cenário por parte dos servidores.

O secretário afirmou ainda que, na esfera nacional, existe uma campanha sistemática contra o SUS, provocada por uma disputa entre a rede pública e privada pela assistência a um potencial mercado formado por 40 milhões de pessoas que ascenderam à classe média.

Além disso, Monti citou pesquisa do IBGE que comprovou que a maioria das pessoas que reprova a qualidade do SUS não é usuária da rede pública. “Se nossa rede é tão desaprovada, por que o prefeito foi reeleito com uma maioria tão grande?”, retrucou ao vereador Lima Júnior.

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