Correntes políticas diversas montaram caravanas de ônibus para, em comboio a partir de São Paulo, participar de uma viagem de mais de 60 horas pela reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE). De Bauru, ônibus se juntaram a grupos vindos de outras cidades do Interior rumo a Salvador (BA), sede do congresso.
O 31º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado nos dias 29 e 30 de maio de 1979, marcou a saída da entidade da clandestinidade.
O congresso foi aberto pelo ex-ministro da Saúde e ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), na época presidente da entidade.
35 anos depois, a avaliação sobre a volta da UNE ainda gera divergências. Para algumas correntes o congresso fracassou por não conseguir definir uma perspectiva política para a luta estudantil e não traçar um plano de mobilização. Para outros, porém, o congresso consolidou a marcha nacional pela redemocratização que culminou, ainda que anos depois, com a eleição direta no País, por exemplo.
O bauruense Antonio Pedroso Júnior lembra que uma vigília foi montada em Bauru, na Vila Falcão, no dia que antecedeu à viagem até a Capital. “Muita gente participou indiretamente do congresso, ajudando na arrecadação de recursos e na realização de uma feijoada que aconteceu na noite da véspera da saída da caravana de Bauru. Nós fizemos a vigília na frente da antiga Fundação Educacional, na vila Falcão, e lá tinha o Postinho Acadêmico. Durante a vigília chegaram caravanas de várias cidades que passaram por aqui, como de Paraguaçu Paulista e Lins”, relembra.
Daqui, como em outras regiões, todos os ônibus foram orientados a seguir em comboio até São Paulo, na frente da Faculdade de Medicina, na avenida Doutor Arnaldo. De lá, o comboio estadual partiu para Salvador.
“Até São José dos Campos a viagem foi tranquila, mas a partir dali ocorreram muitos bloqueios. Ora paravam os ônibus para procurar droga, ora para ver se tinha armas e depois inventavam outros argumentos, como levantar até livros. A ordem era impedir que o congresso se realizasse”, conta Pedroso.
O Centro de Convenções de Salvador estava em fase final de construção. “Tinha umas 10 mil pessoas lá e nós contamos com a solidariedade dos baianos. Foi feita uma campanha e os estudantes foram hospedados em casas de famílias dos soteropolitanos. Isso esvaziou inicialmente a interferência da política, porque era uma multidão espalhada pela capital baiana para participar do congresso”, acrescentou.
Barreiras
Para ser realizado, o congresso teve de suplantar os obstáculos físicos da viagem. “Foram mais de 60 horas de viagem com as barreiras. E chegando em Salvador a polícia jogou grampos no asfalto para furar os pneus. Além disso, o congresso teve a divisão entre o grupo que queria a eleição indireta de uma diretoria no próprio evento e a corrente que queria eleição direta pelos estudantes, o que acabou acontecendo. E a primeira diretoria da UNE depois da clandestinidade acabou sendo eleita no semestre seguinte, em 1979”, contou Pedroso.
Para correntes mais à esquerda, a disputa em torno da eleição da UNE acabou dissipando energia de mobilização em torno de outras questões, tidas como mais importantes, como a adoção de ação política e de campanhas para derrotar a enfraquecida ditadura àquela altura – que completava 15 anos.
O ex-vereador Marcelo Borges de Paula (PSDB), diz que o ambiente foi tenso durante toda a viagem. “Os estudantes estavam mobilizados pela retomada da UNE, mas era ditadura e tudo era tratado com muita truculência. O congresso em si até que foi tranquilo e o recebimento pelas famílias de Salvador ajudou muito nisso. Mas a viagem foi muito cansativa, tensa. Em cada barreira e revista da polícia a tensão era retomada. Bauru tinha força no movimento estudantil com várias lideranças”, citou.
Para Borges, os estudantes foram a ponta de lança rumo à redemocratização. “Os estudantes foram a fanfarra dos movimentos, o grupo que sai na frente, que faz barulho e atrai a massa. A reconstrução da entidade foi o primeiro passo importante para a redemocratização. Eu tinha 21 anos e estudava engenharia na Fundação Educacional”, recordou.
O tucano lamenta o enfraquecimento do movimento estudantil. “Falta a formação de lideranças e muitas entidades atrapalham muito por estrarem atreladas a governos. É preciso olhar para a história para retomar o rumo.”
Edson Yoshino ressaltou que o congresso de Salvador foi realizado sob intensa repressão.
“Embora alguns digam que a ditadura estava agonizando, havia uma grande luta nos bastidores da ditadura, com a chamada Linha Dura querendo recrudescer a repressão, mantendo-se no poder. Era o mesmo período dos atendados praticados por militares, culminando com o episódio do Riocentro”, pontuou.
Yoshino também não retira da memória tensão das paradas, ao longo da viagem. “Os bloqueios no percurso foram muitos, tudo para dificultar e tentar impedir a ida ao congresso. Bauru participou com estudantes da Fundação Educacional de Bauru em sua maioria”, finalizou.
Recorte histórico
Em 1974 foi criado Comitê de Defesa dos Presos Políticos na Universidade de São Paulo (USP) e, depois do período de inatividade, em 1976 iniciou-se um movimento pela reconstrução da entidade. As passeatas de 1976 e 1977 ajudam a impulsionar esse sentimento.
Nesse mesmo ano foi realizado o III Encontro Nacional de Estudantes na PUC-SP, evento clandestino. As tropas da repressão invadiram a universidade lideradas pelo coronel Erasmo Dias.
Em 1979, Salvador sediou o 31º Congresso Geral da Entidade, chamado “Congresso da Reconstrução”, organizado pela primeira vez desde o golpe de 1964 e sem intervenção policial.