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Entrevista da semana: Raul Alberto Videla

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 6 min

O forte sotaque não mente. O médico Raul Alberto Videla, 58 anos, nasceu na Argentina, mas passou mais da metade da vida no Brasil. Oriundo de uma família simples, Videla é filho de mãe dona de casa e pai caminhoneiro. Ele nasceu em Valle Hermoso, estudou em Córdoba e chegou ao País, mais especificamente a Bauru, aos 24 anos de idade. Pouco tempo depois, casou-se com a bauruense Rita de Cássia Munhos Videla e hoje tem cinco filhos, sendo que três ainda moram com ele.

 

 

Da infância em Valle Hermoso, o médico só tem boas lembranças. Ele conta que era uma criança comportada, cujo maior sonho era salvar vidas. Mesmo com dificuldades financeiras, tendo de trabalhar como caminhoneiro nos finais de semana e nas férias para sobreviver na cidade grande, Videla conquistou o que tanto queria. Começou a cursar medicina na Universidad Nacional de Córdoba aos 16 anos e, com 21, já exercia a profissão. Hoje, segundo relatam alguns de seus pacientes, dedica-se em corpo e alma aos assistidos, de forma integral, a partir de uma postura humana e holística. 

 

Embora tenha o mesmo sobrenome do antigo ditador argentino Jorge Rafael Videla, o médico não tem parentesco algum com o militar, tanto que decidiu deixar o país de origem porque se decepcionou com a política. Quando se formou, Videla tentou entrar para a Força Aérea Argentina, mas foi barrado, uma vez que não tinha parentes dentro do Exército. O médico, inclusive, comemora o fato de a ditadura argentina ter provocado a saída dele do país. “Hoje, eu sou mais brasileiro do que argentino”, brinca.

 

Neste momento, apareceu a oportunidade de um intercâmbio de três meses para o Brasil, para atuar no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Bauru. Videla não falava uma palavra sequer do português, mas aprendeu a língua na prática, com a ajuda e a paciência dos pacientes e colegas de trabalho. Pouco tempo depois, fez especialização em cirurgia vascular no Hospital São Camilo, na Capital paulista, e conquistou a confiança de muitos bauruenses por conta da forma vocacionada com que sempre encarou a profissão.

 

Em 1984, aos 30 anos, o médico finalmente conseguiu a autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM) depois de passar por uma rigorosa avaliação. Desde então, passou a trabalhar em diversos hospitais e nunca deixou de lado a Beneficência, que o recebeu de braços abertos para uma espécie de estágio. Atualmente, trabalha com o filho, Raul Alberto Videla Filho. Leia mais a seguir.

 

Jornal da Cidade - Por que o senhor decidiu deixar a Argentina?

Raul Alberto Videla - Eu estou aqui hoje, felizmente, por causa da ditadura militar argentina. Meu sonho era entrar na Força Aérea do meu país. Passei nos exames físico e teórico para assumir o cargo de tenente, mas, no dia da entrevista, me excluíram, porque eu não tinha parente algum no Exército. Eu chorava feito criança, uma vez que meus sonhos foram para o espaço. Desiludido, comentei com um capitão que queria fugir da Argentina e ele me internou em um hospital por 20 dias sem ter nada. Quando saí, constava na minha ficha que eu estava doente e jamais conseguiria outro emprego no meu país. Depois disso, apareceu a oportunidade de fazer um intercâmbio de três meses no Brasil, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Bauru, e aqui estou até hoje.

 

JC - O senhor não sente falta do seu país?

Raul - Confesso que sou mais brasileiro do que argentino. Minha situação é muito engraçada, porque eu estou até me esquecendo do hino argentino. Eu continuo tendo sotaque aqui, mas o sotaque que tenho lá já está totalmente diferente. Portanto, a minha terra é o Brasil, onde eu me sinto bem. Quando eu vou visitar a minha família lá, não consigo ficar mais do que uma semana, já fico desesperado para voltar. Não tem jeito, o meu lugar é aqui mesmo.

 

JC - O que o senhor trouxe da Universidad Nacional de Córdoba?

Raul - Imagine um menino de 16 anos, que morava no interior, se mudar para uma cidade grande. Eu aprendi a me virar sozinho, a administrar a minha vida. Portanto, a experiência que tive foi muito boa e me preparou para a vida.

 

JC - Essa experiência repercutiu na forma mais humana como encara a sua profissão?

Raul - Eu acredito que sim. Lá, eu não me preparei para ser um especialista, mas para ser um médico generalista. Lógico, muitos bauruenses me conhecem como cirurgião vascular, mas eu atendo pacientes de outras áreas que pedem a minha opinião. Essas pessoas confiam em mim. Se você abrir a minha geladeira agora, vai encontrar doces e, até mesmo, ovos e leitoa caipiras. Todos esses presentes são dos meus pacientes.

 

JC - O que o senhor acha da medicina hoje?

Raul - Olha, eu vou falar como um velho agora. Quando eu cheguei a Bauru, os médicos mais novos respeitavam os mais velhos. Hoje, essa moçada que chega não olha na sua cara. Eu estou percebendo algumas situações de descaso que chamam a minha atenção. No geral, observo um desprezo pela vida, tanto por parte dos médicos quanto pelos pacientes. Por isso, creio que não só os profissionais da área perderam um pouco a humanidade, mas a maioria das outras pessoas também.

 

JC - Qual a opinião do senhor sobre o Mais Médicos?

Raul - Eu sou totalmente contra. Quando eu vim para cá, eu tive de passar por uma avaliação rigorosa para receber a autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM). Me fizeram perguntas até de cirurgia oftalmológica, para você ter uma ideia. Ou seja, com cinco ou seis anos de formado, eu tive de estudar tudo de novo, mas com outra visão. Eu creio que todo médico deveria fazer isso e, até hoje,  eu tenho esse costume de continuar estudando. Portanto, não acho justo que pessoas mal preparadas, como essas que estão entrando, não façam o exame de revalidação.

 

JC - Mudando um pouco de assunto, para qual país vai torcer na Copa?

Raul - Olha, para os dois até a final. Mas, se na final o Brasil encarar a Argentina, eu vou torcer pelo meu país de origem. Se coloque no meu lugar. Se você deixasse o Brasil e fosse para a Argentina, torceria para qual país na Copa?

 

JC - Descobri que o senhor torce para o Corinthians. Se o time jogasse contra qualquer outra seleção argentina, como na final da Libertadores em 2012, para quem o senhor torceria?

Raul - Ah, para o Corinthians, claro. Eu sou louco pelo Corinthians. Quando o nosso time enfrentou o Boca Juniors na final da Libertadores, em 2012, eu não fiquei na dúvida. Torci para o Corinthians.

 

JC - Mas de onde veio essa paixão pelo Corinthians?

Raul - Sabe o que acontece? Eu cheguei aqui em 1979, que era a época do Sócrates, e eu me encantei com isso. Naquela época tinha o Flamengo, que era bom também, mas eu me fixei mais no Corinthians. Simplesmente, é o melhor time do mundo.

 

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