São mesmo sortidas as várias formas de violência que podem se abater sobre os menos poderosos. Está no pacote dos infortúnios. É preciso saber viver e, quando possível, reagir. Na boa, com classe e talento.
Parece ter sido, portanto, adequada a reação do historiador baiano Paulo César de Araújo ao lançar, agora, o livro "O Réu e o Rei" (Companhia das Letras, 520 páginas). Araújo, como se sabe, foi alvo de uma das grandes violências intelectuais da história recente do Brasil: a pena de morte de seu livro "Roberto Carlos Em Detalhes".
Lançado pela editora Planeta, "... Em Detalhes" foi banido por decisão judicial em 2007 após Araújo ser processado pelo rei Roberto Carlos. Virou raridade de colecionador. Eu tenho e posso dizer que essa biografia não autorizada é boa do começo ao fim.
E que não fere a imagem do artista nem do cidadão Roberto Carlos, até porque Araújo é seu fã declarado há décadas. Mas também não se furta a tocar em pontos controversos da vida do ídolo. Como personagem do imaginário coletivo, Roberto bem que poderia ter aceito a obra. Pelo contrário, a perseguiu implacavelmente.
A polêmica toda que se seguiu sobre autorização prévia para publicação de biografias não autorizadas, como querem alguns, foi boa para dar visibilidade ao tema e para mostrar de que lado estão certas "pessoas públicas". Gerou embate até mesmo com a Constituição. Embate, aliás, que está nas mãos do Supremo por uma solução final.
Agora, sem paixões, certamente lerei "O Réu e o Rei" esperando que essa página da história brasileira possa definitivamente ser virada. Simplesmente recolher uma obra das prateleiras com a mão de ferro da fama não pode passar batido.
Devemos analisar o episódio e tirar lições. Quem sabe o próprio Roberto não reconsidere suas motivações. Seria uma homenagem à liberdade à altura de um verdadeiro rei.
O autor é editor executivo do JC