Política

1ª horta comunitária pode acabar

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr.

Ana Neto da Silva, João Batista dos Santos, Lindaura Tavares Garcia e Mario Passeto levam água de casa para jogar nas plantas

Alface, rúcula, cebolinha, couve e chicória. Onde achar essas e outras verduras, frescas, cultivadas sem agrotóxico, e por um preço justo? Na horta comunitária do Geisel isso é possível há 33 anos. Cuidada por idosos que vivem no bairro, ela foi a primeira do tipo a existir em Bauru, mas agora corre riscos pela inexistência de “herdeiros”, mas, principalmente, por conta de uma grande dívida com o Departamento de Água e Esgoto (DAE).

O JC apurou que os débitos ultrapassam R$ 20 mil, motivo pelo qual a autarquia teve de desligar  a água do local no dia 21 de maio. Desde então, os colaboradores da horta suspenderam novos plantios e, para cuidar do que já está crescendo, levam galões de água de casa.

“O triste é que nem avisaram a gente sobre o corte da água. Eu tive que mandar devolver metade das mudas que eu tinha comprado”, conta o aposentado Mário Passeto.

Há um ano, porém, o DAE cobra a apresentação de um novo hidrômetro. O equipamento até então utilizado para medições está quebrado. Por conta disso, todos os meses a dívida cresce em R$ 203,00, valor equivalente a 45 metros cúbicos – padrão adotado pelo município quando a leitura do consumo não é possível.

O impasse junto à autarquia motivou, inclusive, parecer interno que sugere providências para que a área seja retomada pela administração local. O terreno pertence à Prefeitura de Bauru e, em 1993, quando a horta já existia, foi cedido ao Centro de Valorização da Criança (Cevac), por um período de 25 anos.

A entidade mantém uma creche e outro projeto social em imóveis vizinhos da horta. O presidente Mairton Farias observa que o Cevac não tem vínculo com as atividades desenvolvidas no local. “A concessão é anterior à nossa gestão. Nunca quisermos mexer nisso porque sabemos do problema social que poderia ser criado caso reivindicássemos a área”.

Passado

Coordenadora dos agricultores da horta comunitária, Ana dos Santos, 63 anos, integra o grupo desde o primeiro dia de atividades, há 33 anos. “Ajudei a carpir esse terreno para a gente começar a plantar”.

Ela afirma que, nos primeiros 20 anos de atividade, não havia cobrança de água. “Só muito tempo depois que eles colocaram o medidor. Também tinham dito que esse terreno seria para a horta em definitivo. Mas, agora, a gente não tem mais essa segurança, o que desanima a continuidade da produção”.

Para a coordenadora, sem o retorno da ligação d’água e o “perdão” da dívida - segundo ela, “impagável” -, a produção terá que ser encerrada.

Sem lucro

Ana explica que as contas de água não foram pagas porque os recursos obtidos por meio da horta são suficiente apenas para aquisição de adubo e outros insumos.

“Quem planta muito consegue levar para a casa R$ 50,00 por mês. A gente não vive disso. Somos aposentados. Mas é quase uma terapia. Temos muito amor por esse projeto”.

Parte da produção é destinada, gratuitamente, a entidades. A outra é vendida a preços simbólicos para a comunidade do entorno do bosque. “A turma do bairro procura muito porque a gente cobra um preço muito modesto, nem se compara com os valores pelos quais os produtos são vendidos por aí”, diz Lindalva Tavares, 63 anos.

Segundo ela, muita gente recorre à horta comunitária, em busca de ervas com poderes medicinais. “Tem planta até para ajudar a emagrecer”, brinca.


‘Isso aqui é minha vida’

Aos 93 anos, o aposentado João Batista dos Santos mantém a rotina das últimas três décadas: todos os dias, de domingo a domingo, vai cuidar de suas plantações na horta comunitária. “Se isso aqui acabar, eu não sei o que vou fazer. Acho que eu fico doente Isso aqui é minha vida”, conta.

Quando foi criado, o grupo era formado por mais de 30 famílias. Hoje, são apenas cinco. Ana dos Santos afirma que todos os moradores do Geisel que tinham vontade podiam cultivar na horta comunitária.

“Depois, se alguém morria ou saia da cidade, o espaço era cedido para outro interessado. Mas, hoje em dia, o pessoal não quer saber de plantar. Então, quando sobra alguma área, a gente mesmo pega para cuidar, na medida do possível”, diz ela.


Rodrigo: possível solução

Os idosos que cuidam da horta comunitária contam que, no primeiro ano de seu governo, Rodrigo Agostinho (PMDB) foi conhecer e ficou encantado com o espaço. “Ele falou que a gente tinha que cuidar e saiu daqui com uma sacola cheia de verduras”.

Procurado ontem pelo JC, o prefeito recebeu com surpresa a notícia sobre o corte da ligação de água e garantiu que vai acionar a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) para buscar uma solução. “É uma horta bem antiga. Pode ser o caso de a prefeitura assumir as despesas de água. Vamos ver se isso será possível”.

O vereador Sandro Bussola (PT) foi acionado pelos agricultores e agendou, para amanhã, uma reunião com o titular da Sagra, Chico Maia, e a secretária do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo. “Acredito que cabe ao poder público a função de dar suporte para a continuidade desse projeto”.

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