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Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Aparentemente, os analistas que se ocupam dos temas econômicos entre nós não se distinguem pela objetividade, mas pelas crenças que cultivam e que insistem em apresentar como resultado de "suas ciências". Simplificadamente poderíamos dividi-los em duas tribos principais. De um lado os que visivelmente são maioria nos grandes veículos de comunicação e que se creem neoliberais e, de outro, os que se afirmam heterodoxos, o que lhes permite uma ampla liberdade de contestação, praticamente sem fronteiras...

Neoliberais são aqueles que se consideram "certinhos" e, fundamentalmente, acreditam que há uma ordem "natural" na organização econômica da sociedade através de "mercados". Ela pode ser "revelada" pela análise da ação dos agentes em resposta aos incentivos que aqueles lhe proporcionam. Caberia ao Estado apenas garantir o desimpedido funcionamento dos mercados (propriedade privada) e providenciar o fornecimento de bens públicos (segurança, justiça, valor da moeda etc) que não podem ser eficientemente produzidos por ele. A combinação (mercados + Estado) levaria à combinação "ótima" do uso dos fatores de produção e à satisfação máxima dos agentes. "Evidentemente", uma combinação que garantiria à sociedade manter sempre um nível natural do desemprego. A intervenção do Estado é, portanto, dispensável e, no limite, perturbadora do equilíbrio "natural".

Do outro lado, a tribo mais interessante e que se crê heterodoxa inclui toda a sorte de contestadores da existência daquela "ordem" liberal: keynesianos e marxistas em todas as suas infinitas matizes, neo-desenvolvimentistas, ecologistas, "políticos ambientais", politicólogos, historiadores, geógrafos, niilistas, anarquistas e "tutti quanti". Cada um com seu próprio diagnóstico de nossos problemas e, obviamente, com receitas infalíveis para resolvê-los, desde que lhes fosse dado ilimitado "poder" para implementá-las. Felizmente, nem sempre obtêm a parcela de poder desejado. Quando o tiveram, produziram os desastres do século XX.

Se de um lado é evidente que não existe ordem "natural" no universo econômico, do outro é também evidente que não é possível superar impossibilidades físicas - como distribuir o que não foi produzido, por exemplo - com medidas que pareçam "politicamente corretas". O fracasso do "poder" é sempre justificado pela falta de "mais poder", até atingir o "poder absoluto". O caminho mais custoso para enfrentar os problemas é o da ruptura com o sistema vigente e entregar-se a um ente "sobrenatural", portador da santíssima trindade: a onipotência, a onipresença e a onisciência, o partido incontestável, como sugerem nas entrelinhas alguns dos nossos contestadores...

Um exemplo daquela divisão é o respeito sacrossanto dos membros da primeira tribo à opinião das Agências de "ratings". E o solene desprezo das demais tribos à ortodoxia das "notas", cujo anúncio é ansiosamente esperado pelas rivais. Nem uma coisa, nem outra, mas é inútil ignorá-las, porque o "mercado" não as ignora...

O autor é economista, ex-ministro da Fazenda e
articulista do JC

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