Você sabe aferir quanto custa morar em sua cidade ou está no grupo da grande maioria que não tem referência sobre quanto é preciso gastar para satisfazer necessidades de consumo em transporte, alimentação e lazer? O acesso a ferramentas tecnológicas e a histórica dificuldade em fechar as contas no final do mês têm atraído contingente de pessoas interessadas em saber qual é o custo de vida no lugar onde mora.
A prática, embora ainda esparsa entre os consumidores, tem como aliada a Internet, por onde consumidores têm registrado em mídias interativas, como o Facebook, ou sites específicos o hábito de anotar o preço de produtos e serviços. De uma dessas iniciativas surgiu o site www.custodevida.com.br. Ele traz colaboração espontânea dos usuários, com cadastramento simples e gratuito na página formulada pelo estudante Lucas Franco. Conforme a página, nesta semana o sistema de apontamento de preços de alimentos, transporte e outras despesas comuns atingiu 780 cidades e 5 mil colaborações.
A amostragem não é científica e não está presa a elementos econômicos. A ideia é a coleta da média de preços entre diferentes cidades, cada qual com seu perfil, peculiaridade. Ao final, apesar do caráter indicativo do resultado, o universo das anotações gera um ranking informal da cidade mais “cara” e mais “barata” para se viver.
Não é possível tornar os resultados da amostragem uma forma concreta de aferição do custo de vida de uma cidade em relação a outra. Mas, pela média dos registros espontâneos, o resultado oferece indicativos.
E os indicativos não estão fora da realidade. No custodevida.com.br está apontado que São Paulo e Rio de Janeiro são as mais caras para se viver. A seguir vem Santos (SP). Da região, a melhor “colocada” é Araraquara (SP) – na 35ª posição.
Bauru está situada em 90º lugar, no mesmo patamar de custo de vida registrado no site que cidades como Maringá (PR), Poços de Caldas (MG) e Marília (SP).
A experiência, em essência, guarda o positivo estímulo ao nada sadio comportamento do brasileiro diante do consumo. Na “média”, o brasileiro costuma reclamar muito e agir pouco em relação ao custo de vida.
Os próprios dados da amostragem denotam que o espírito não é fazer planilha econômico-financeira estratififcada de custo de produtos e serviços em cada cidade. Vários exemplos reforçam a intenção de “exercitar o hábito de coletar, registrar e acompanhar”, preços no cotidiano.
Segundo os dados, a mensalidade de uma academia em Bauru custa, na média, R$ 90,00, contra R$ 63,33 em Araraquara. Da mesma forma chama atenção a aferição de que uma diária em um hotel econômico estaria em R$ 145,00 por aqui (quando o valor é bem menor na prática) contra R$ 79,00 para os araraquarenses.
Outros dados também “destoam” para mais ou para menos. Um almoço caro em Bauru está anotado por apenas R$ 38,33. O mesmo item aparece a R$ 80,00 em Araraquara. A diferença no pacote de meio quilo do café também chama atenção: R$ 7,75 nos estabelecimentos bauruenses e “apenas” R$ 4,90 em Araraquara. Ou seja, as eventuais contradições de valores ratificam que a ideia não é levar a “ferro e fogo” o universo da amostragem, nem os critérios de registro.
Cada pessoa tem índice de custo de vida diferente
Aferir o custo de vida em determinada comunidade não é algo simples, até porque “cada um de nós tem um índice de custo de vida diferente e que está ligado à cesta de consumo individual”.
A ponderação é do economista Fernando Pinho. Ele afirma que a verificação sistematizada do custo de vida envolve metodologias. “O cigarro para um não fumante não tem influência alguma no custo de vida, porque não incide sobre o índice desse consumidor. Mas o mesmo produto terá peso significativo para o viciado”, cita.
Pinho lembra, portanto, que há relação direta entre custo de vida e o índice de custo de vida de cada um, “porque o conteúdo da amostragem repercute de forma diferente por cada indivíduo e o comportamento de consumo tem reflexos consequentes em outras medições, como a inflação”.
O mesmo raciocínio vale para a costura de custos junto ao poder público, as empresas e os demais organismos sociais. “Não dá para ter critério único. A metodologia a ser aplicada em uma cidade é muito diferente em outra. É preciso estudar a cesta de produtos e todos os elementos incidentes sobre o modo de vida de um lugar para compor o custo de vida”, menciona.
Em suma, o grande problema da cesta do custo de vida é misturar em um mesmo pacote comportamentos de consumo diferentes. “O perfil de inflação entre as comunidades já é bastante diferente e isso é muito mais entre as cidades”, complementa.
Mas Pinho ressalta que a iniciativa de ranquear o custo de vida entre cidades é muito boa. “É uma excelente ideia e aqui não se deve mesmo ter preocupação com o ranking em si. O melhor dessa iniciativa é despertar para o hábito de acompanhar preços e custos. O cidadão precisa ter isso como hábito”, incentiva o economista especialista em mercado de capitais.
Para Fernando Pinho, o consumidor tem de abstrair a cultura de ver e checar quanto custa tudo. “Até para que ele possa adquirir não só planejamento sobre seu orçamento doméstico, mas também para que tenha dimensão sobre a economia em sua cidade e para ter parâmetros para cobrar e acompanhar políticas e resultados do poder público”, adverte o economista.
Fidelização para os gastos
O executivo Ramiro Ferreira Júnior monitora, entre uma parada e outra em um hotel ou aeroporto, os gastos dele, da esposa e das filhas. Para cada uma ele forneceu um cartão de crédito. “O cartão substituiu a antiga mesada e o limite de crédito sempre foi compatível com a disponibilidade e a idade e a necessidade de gastos delas. Não patrulho gasto com alimentação e mesmo balada, lazer. Não quero que elas passem a dificuldade que enfrentei. Mas gasto fora do combinado, do fixo, tem de me consultar para saber se é possível, se cabe no orçamento. E isso tem funcionado bem”, descreve.
Ramiro acredita na fidelização dos gastos. “O cartão de crédito ajuda nos bônus com viagens e isso tem peso na escolha do passeio de férias depois. Além disso, via cartão, eu tenho um extrato com todas as informações necessárias todo mês. Quanto aos gastos domésticos, acredito na fidelização, no equilíbrio entre a qualidade do produto, o rendimento se for material de limpeza ou o sabor se for alimento, por exemplo. Com esse controle, com o tempo, você passa a tirar proveito também da qualidade estabelecida para cada tipo de despesa, com o que consumir e por qual razão”, compartilha o executivo Ramiro.