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Azares do mundo digital

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No século 17, o pensador e filósofo francês Blaise Pascal já atribuía todos os problemas do ser humano à nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e calados num quarto. Ele dizia que a distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, embora seja ela a maior de nossas misérias. Esta observação vem a propósito, nos dias de hoje, quando gastamos tanto tempo em distrações na Internet e suas redes sociais. Não sobra mais tempo para analisar, escrever, criar. A revolução da informação deveria ter vindo acompanhada de um manual de instruções do tipo "leia antes de usar". Por falta desse cuidado, ainda não sabemos fazer uso adequado dessa ferramenta que alterou o ritmo de nossas vidas. Vivo me policiando para não despender muito tempo no Face, ou com a abertura de centenas de mensagens recebidas diariamente. Preciso abrir espaço na agenda às leituras que imponho a mim mesmo. Ou então para escrever as mal traçadas, "com a saudade que veio visitar meu coração" (Renato Russo).

Há alguns anos, visitei com minha mulher a casa de Victor Hugo, na Place des Vosges, transformada em museu. O prédio elegante, de tijolos vermelhos e telhado pontiagudo de ardósia, ainda guarda os móveis da residência, inclusive uma escrivaninha muito alta para os padrões normais. Versão moderna da técnica utilizada por Victor Hugo no século 19. O autor de clássicos como "Os miseráveis" tinha por hábito escrever nu, e em pé; cabia ao mordomo esconder as vestimentas do patrão para impedi-lo de sair às ruas antes de concluído o tempo que ele se alocara para escrever. Escrevia em pé para que as dores nas pernas o lembrassem do ato de renúncia que é produzir alguma coisa que possa ser lembrada por muito tempo. Lá fora, no gramado da Place des Vosges, vi dezenas de casais que aproveitavam o sol de início de verão para piquenique e ganhar uma cor. Algumas loiras de olhos azuis floriam o bairro do Marais, onde a praça de localiza. Não sei como era o ambiente externo, ali, no século 19. Acredito que deveria haver muitos "flâneurs", como Charles Baudelaire chamava "as pessoas que andam pela cidade a fim de experimentá-la". Típico fenômeno urbano e da modernidade. O certo é que razões não faltavam para Victor Hugo se distrair bem em frente de casa.

Mas nem tudo é distração nos computadores. Um grupo de jovens da Universidade da Carolina do Norte criou um programa que permite ao usuário bloquear o acesso à internet por um período de até oito horas. Espertamente batizado de "Freedom" (Liberdade), promete a desintoxicação digital. O Freedom interrompe a conectividade de forma autoritária. Não basta um clique para desfazer o apagão. É necessário desligar e religar o computador, o que equivale a uma eternidade para quem está trabalhando. Diz a notícia que alguns escritores talentosos já aderiram com entusiasmo à ferramenta. E derramam-se em elogios à liberdade de criar.

Na área da educação, o problema deve ser ainda maior. Um especialista fala em "perda da quietude" por parte dos estudantes - a perda da capacidade de pensar e refletir de forma independente sobre um tema, em meio a tantos aparelhinhos que piscam, vibram e acendem luzinhas. Os alunos estão grudados em smartphones, checando e-mails e alimentando o Face. Conheci um professor que ameaçava jogar pela janela da sala de aula os iPhones tomados dos alunos. Segurou sua impaciência até descobrir um método de convivência com a vida tecnológica, de forma a usar o "inimigo" em seu favor. Começou a prescrever temas para os alunos procurarem no Google. Temo que suas boas intenções só tenham colaborado para aumentar, ainda mais, o contingente dos "estúpidos do Google", aos quais se referiu o Prêmio Pulitzer de 2011, Nicholas Carr.

Até aí, pode-se dizer que são análises teóricas, experimentações e preocupações de intelectuais com nossa existência digital ainda em construção. Pessoas comuns começam a desconfiar que a facilidade da conexão móvel é mais um componente à exploração do capital sobre o trabalho. Receber ordens do chefe nos smartphones e ter de responder e-mails de interesse da empresa à meia-noite está virando síndrome no mundo moderno. Tudo devido a nossa incapacidade de desligar.


O autor é jornalista e articulista do JC

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