A Secretaria Municipal de Saúde confirmou, na última semana, a primeira morte de 2014 por leishmaniose visceral americana (LVA) em Bauru. Assim como a vítima fatal, quase todas as pessoas que foram contaminadas pela doença neste ano são moradoras da Zona Oeste da cidade.
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Dos oito casos registrados na cidade, sete estão concentrados na região, incluindo a morte de um morador do Jardim Terra Branca |
Dos oito casos registrados até o momento, sete estão concentrados nesta região. O primeiro óbito foi de um vigilante de 73 anos, que já sofria de insuficiência renal e morreu no dia 4 de maio, após permanecer internado em duas unidades hospitalares de Bauru. A informação, no entanto, só foi divulgada pela secretaria na quinta-feira passada.
O vigilante era morador do Jardim Terra Branca, bairro que fica na Zona Oeste da cidade, assim como a Vila Industrial, o Parque Jaraguá, o Jardim Vitória, a Vila Ipiranga e o Jardim Eugênia, onde outros seis casos foram contabilizados. O único registro que foge à regra é de um morador da Vila Carolina, que fica na área Sudeste de Bauru.
Segundo Heloísa Lombardi, diretora do Departamento de Saúde Coletiva da secretaria, até o momento, não há um motivo claro para explicar o fato de quase todos os infectados morarem em uma mesma região.
“Primeiro, porque o número de casos de 2014 é pequeno e essa concentração não vem se confirmando em anos anteriores. E, segundo, porque a referência é o endereço de moradia da vítima, mas nem sempre o local de contágio. Ela pode, por exemplo, ter sido infectada no trabalho, em um bairro distante de onde mora”, detalha.
Conscientização
Heloísa pondera ainda que não há, na Zona Oeste, condições mais precárias de higiene do que em outras regiões de Bauru, o que poderia favorecer um número maior de casos da doença. “E o fato de a primeira pessoa infectada no ano ser daquela região (uma criança do Parque Jaraguá) também não quer dizer nada. Não foi o ponto de partida para a disseminação”, observa.
Coincidentemente, foi na Zona Oeste que teve início a endemia de leishmaniose visceral americana em Bauru, há cerca de dez anos. De lá para cá, o ano que registrou maior número de doentes foi 2008, com 79 notificações. Em todo o ano passado, foram confirmados 29 casos de LVA, com um óbito.
A maior dificuldade para combater a leishmaniose, de acordo com a diretora do Departamento de Saúde Coletiva, ainda é a falta de conscientização de parte da população, que não mantém a devida higiene de seus quintais e terrenos.
Transmissor da doença, o mosquito-palha vive preferencialmente em lugares úmidos, onde haja acúmulo de material orgânico.
“Lixo e fezes de animais descartados de forma inadequada favorecem a proliferação do vetor, que está espalhado em todas as regiões do município”, pontua Heloísa.
Tratamento de cães contaminados preocupa a Secretaria de Saúde
Além da condições precárias de higiene de terrenos e quintais, a insistência no tratamento de cães infectados com a leishmaniose também preocupa a Secretaria Municipal de Saúde, já que, para eles, a leishmaniose não tem cura. Embora a eutanásia seja a única saída possível defendida pelo município, Conselho Federal de Medicina Veterinária, Organização Mundial da Saúde e Ministério da Saúde, muitas clínicas veterinárias de Bauru utilizam medicamentos para garantir a sobrevida dos animais.
Em julho do ano passado, quando, mesmo com a condenação da prática pelos órgãos de saúde, uma decisão do Tribunal Regional Federal autorizou o cuidado aos animais doentes, o JC publicou ampla reportagem sobre o assunto. Na época, a reportagem pôde constatar que o tratamento vinha sendo realizado normalmente nas clínicas, inclusive com o uso de medicamentos destinados a humanos. Mas, mesmo quando a leishmaniose é controlada, os cães continuam sendo fonte de infecção para o mosquito-palha. Se o inseto picar o animal, poderá transmitir a doença a humanos, o que representa um grande risco à saúde da população.
“Mesmo tendo apego pelo cão, as pessoas precisam se conscientizar de que a conduta correta é a eutanásia. Quando decidem tratar o animal e deixá-lo em casa, elas contribuem para a manutenção da cadeia de transmissão, colocando em risco não apenas os familiares, mas todos os moradores do entorno”, frisa Heloísa Lombardi, diretora do Departamento de Saúde Coletiva da Secretaria Municipal de Saúde.
O que é
A leishmaniose é uma doença infectocontagiosa transmitida pela picada do mosquito flebótomo (também conhecido como “birigui” ou “mosquito-palha”) infectado, que introduz na circulação do animal ou do homem o protozoário Leishmania chagasi. Na zona urbana, pode ser desenvolvida em cães ou homens.
Nos humanos, os principais sintomas são febre intermitente com semanas de duração, fraqueza, perda de apetite, emagrecimento, anemia, palidez, aumento do baço e do fígado, comprometimento da medula óssea, problemas respiratórios, diarreia, sangramentos na boca e nos intestinos. Nos cães, são atrofia muscular, falta de apetite, diarreia, lesões oculares, sangramentos, descamação da pele, úlceras e nódulos na pele.
Mesmo infectado, um cão não transmite a doença diretamente para outros animais ou outras pessoas. O mesmo ocorre com humanos. A transmissão do parasita ocorre apenas por meio da picada do mosquito fêmea, quando ele se alimenta do sangue infectado de um cão ou pessoa doente e inocula a Leishmania em pessoas ou animais sadios.
Apesar dos efeitos colaterais adversos, o medicamento mais indicado para o tratamento da leishmaniose são os antimoniais pentavalentes, por via endovenosa.
