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Reinaldo Cafeo: “Deve-se acompanhar quanto o filho gastou” |
Cada vez mais, o uso de cartões de débito e crédito deixa de ser uma prerrogativa exclusiva de adultos. Com o consentimento e até estímulo dos pais, crianças também têm trocado cédulas pelo “dinheiro de plástico”, inclusive em Bauru. Adeptos da nova conduta infantil apontam, entre as vantagens, questões como segurança, praticidade e autonomia.
Há, porém, quem tenha ressalvas, uma vez que a substituição pularia uma etapa importante na educação financeira da criança, que é justamente o manuseio do “dinheiro vivo”. Para eles, o uso de cartões ainda pode oferecer risco de descontrole financeiro, no caso de cartões vinculados à conta dos pais (leia mais abaixo).
Como funciona?
Conforme o Jornal da Cidade apurou junto a instituições financeiras, é possível estabelecer o cartão ativo aos filhos – crianças e adolescentes -, com valor mínimo entre R$ 50,00 e R$ 200,00 por mês. O Bradesco confirmou a informação, assim como o Banco do Brasil (BB), onde todo cliente, maior de idade, pode solicitar um cartão adicional (um ou mais), sendo o responsável financeiro pela movimentação dos filhos. Contudo, para cartões de crédito, a idade mínima é de 12 anos, assim como na Caixa Econômica Federal.
Circuito fechado
Algumas escolas particulares em Bauru já utilizam cartões para incentivar a educação financeira das crianças. Métodos como vincular os cartões de débito exclusivamente às cantinas vêm despertando o interesse dos pais, que atribuem a iniciativa à praticidade e segurança.
O controlador de tráfego aéreo, Sérgio Ricardo Simões Rossitto, é um dos que já beneficiou o filho com um cartão para uso na cantina de uma escola particular na cidade.
Ele entra no site do estabelecimento e credita cerca de R$ 50,00 por mês, por meio de sua conta no banco. O cartão, porém, é opcional entre os alunos e só pode ser utilizado na escola. No caso de Rafael Colaço Rossitto, de 7 anos, ele já administra os gastos pessoais. “Ele adora. Antes, dávamos dinheiro, mas o cartão facilita muita coisa. Mas é claro que ele é orientado no consumo, até porque o limite é dado por mim”, explica Rossitto.
A oficial de justiça Luciana Soares Neves tem dois filhos matriculados na mesma escola em que Rafael estuda. Tanto o mais velho, Gabriel Soares Neves, 9 anos, quanto a caçula Luisa Soares Neves, de 7 anos, também são orientados quanto ao consumo. “Eu explico como utilizar o cartão, mas os deixo livres na compra. Eu vejo isso como vantagem, principalmente quando não tenho o dinheiro na hora”, disse.
Controle
Permitir ou não que uma criança faça uso de cartão de crédito? A discussão tem seus prós e contras e especialistas orientam que deve haver acompanhamento constante dos pais, seja qual for a opção da educação financeira.
“A criança não tem formação de raciocínio financeiro. A meta é desenvolver esse raciocínio para que ela aprenda a lidar com o reconhecimento de valor da moeda, não só da quantia que recebe dos pais, mas, principalmente, entender a fonte, que é através do trabalho”, explica o psicólogo e especialista em terapia cognitiva, Arnaldo Vicente.
Ele acrescenta ainda que, ao exercitar isso com a criança, os pais vão observando o seu perfil, no sentido de quanto o filho é capaz de conseguir se controlar nos desejos, de quanto é impulsivo, além de aprender a lidar com frustrações. “Acaba sendo um instrumento de amadurecimento psicológico, desde que seja acompanhado pelos pais, que são os primeiros professores financeiros dos filhos”, completa.
Economista orienta pais a monitorarem os gastos
Considerada fundamental por especialistas, a educação financeira deve ser trabalhada diariamente com as crianças. A opinião é do economista Reinaldo Cafeo, que orienta os pais a acompanharem os gastos dos filhos com cartão de crédito. Para ele, a prestação de contas periodicamente deve ser exigida. “Olhar quanto gastou e suspender o limite se não forem cumpridos certas normas”, acrescenta.
Cafeo não avalia como ideal oferecer cartão de crédito para menores de 12 anos, apesar da praticidade que propicia. “Tudo tem sua idade. A criança, até 12 anos, em um primeiro momento, deveria saber lidar com o dinheiro real e não com o ‘de plástico’. Isso porque o próprio adulto tem dificuldade em lidar com cartões de crédito, pois acaba potencializando o consumo e você não tem aquela sensação de quanto está gastando”, afirma.
Outro ponto observado por Cafeo é a questão do descontrole financeiro. “Quem vai cobrir os gastos são os pais, ou seja, a criança não tem noção de quanto é difícil fazer essa cobertura. Isso pode levá-la a um exagero de gasto, em uma idade em que deveria estar preocupada em limitá-lo. O impasse pode gerar um descontrole”, alerta.
Programas de educação financeira são realizados
De acordo com a coordenadora de ensino fundamental de um dos colégios que oferecem o cartão, Adriane Branco Folkis Pontalti, são realizadas atividades de orientação e cálculos com exemplos reais. “A professora acompanha os alunos na cantina para orientar sobre o pagamento dos produtos, conferir o troco”, explica.
Em outra escola particular consultada pela reportagem, um cartão magnético da instituição de ensino também dá direito ao aluno comprar na cantina. Intitulado “Pague Seguro”, os pais controlam o valor creditado. “Diversos terminais de consultas ficam espalhados na escola para que a criança possa verificar sua conta”, acrescenta a diretora da instituição, Ana Cristina Rocha Gonzaga.
Em uma terceira escola, também privada, o método é “menos tecnológico”, porém, eficaz, conforme explicou o dono da cantina, Marcos Mariano. “A maioria dos pais deixa uma quantia mensal em dinheiro e vamos abatendo conforme o aluno gasta. Tudo é controlado no caderninho e nunca tive problemas”, contou.
Prêmio
Como dinâmica de educação financeira, o economista Reinaldo Cafeo sugere uma premiação para os filhos que mantiverem o controle dos gastos.
Prestar contas
“No final de semana, é legal fazer a prestação de conta. É interessante estipular uma premiação quando ocorre a economia. Isso é bom para educação financeira da criança”, orienta.