A festa do "Itaquerão" tinha embutidos riscos de vaias, ameaças de protestos democráticos e antidemocráticos e temor de mau desempenho da seleção nacional. Aquela praça esportiva símbolo megalomaníaco plantado na periferia de São Paulo cujo nome será brevemente escolhido a preço do valioso ouro muçulmano parecia ser, como diria o Cebolinha, uma "plaça de plagas" plantada e nutrida pela inveja que é prima-irmã do famigerado e destrutivo olho gordo, como começaram a perceber seus proprietários que, até aqui, não tiveram alegrias com o sonho centenário finalmente quase realizado, faltando umas coisinhas insignificantes aqui e ali que apenas a imprensa estrangeira ou a imprensa nacional sistematicamente do contra parecem perceber.
As expectativas não eram boas. Numa praça que aparentava estar praguejada, o contágio tendia a alastrar para além das estruturas e atingir outros pontos nacionais forçando divisão de olhares, um olho para o gramado e o outro para o restante do mundo-Brasil, atemorizado por ameaças de greves de última hora e protestos pouco democráticos. Cá e lá haviam expectativas temerosas. Praga não costuma ser como raio que não se sabe onde nem quando vai cair. Bem ao contrário, a praga brota onde tem que brotar e exatamente na hora que precisa ser brotada, natural portanto que se mantivessem tensas expectativas.
Na democracia e no modo de governo republicano o governante investido pela legitimidade das urnas tende a ser amado, louvado e acolhido pelo seu povo, pelo menos nos momentos iniciais. E o amor inicial precisa ser docemente acarinhado e zelosamente perseguido até o último dia de mandato. Só mesmo a praga que brota onde tem que brotar poderia justificar que a Presidente (nossos bons dicionários desconhecem o feminino e não se supera isso por Decreto) comparecesse ao jogo de abertura abrigada pelo quase anonimato. E a temida vaia, prova provável de desamor democrático, apareceu em calão baixo e grosseiro que mereceu justo e merecido desprezo no noticiário e gerou por todas as bandas repercussão negativa.
Jogo é jogo e urna é urna, inadmissível e inoportuna a confusão. As tentativas de protestos antidemocráticos acontecidas sem muito estardalhaço em pontos isolados e com poucos participantes também não tiveram nem expressividade e nem grande repercussão. Apesar dos pesares ainda bem que a ameaça virou fantasma e as terríveis bombas se transformaram em inocentes traques de salão.
Nossa jovem e renovada seleção de futebol portou-se com decência num jogo tenso como todo jogo de abertura de qualquer torneio e o juiz que nos pagou dívida remanescente da copa africana acontecida em nossa partida contra a Holanda, ajudou a afastar a ameaça de vexame. Mais um vez nesta nossa venturosa pátria, como em tantas outras vezes, a situação tensa e as expectativas preocupantes terminam em pizza, superado em boa parte nosso pessimismo. E isso também ajuda a eliminar a má fama da bela praça esportiva que parecia praquejada, para alívio de seus felizes proprietários. Ufa!
O autor é advogado e articulista do JC