Membro icônico do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – o Partidão - e constituinte de 1988, o deputado federal Roberto Freire (PPS) consolidou-se nos últimos anos como um dos principais algozes e críticos do governo do PT, a qual chama de “tempos de Lula”. Ele, inclusive, atribui ao partido que preside nacionalmente a tarefa de unir as forças de oposição contra a reeleição de Dilma Rousseff (PT).
Freire afirma que, apesar das diferenças entre Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) - ex-governadores de Minas Gerais e Pernambuco, candidatos à sucessão do Palácio do Planalto -, o PPS vai trabalhar para transmitir à sociedade a ideia de que ambos possuem mais ideias convergentes do que divergentes.
“Nós temos essa clareza e vamos fazer o possível para criar esse ambiente. A gente sabe fazer isso. Na época do velho PCB, mesmo ainda dentro do MDB, nós tínhamos a postura de não apenas respeitar, mas de incentivar a aproximação daqueles que dissentiam do regime militar”, cita, ao lembrar que Eduardo Campos, a quem o PPS apoiará formalmente, defendeu por oito anos o governo Lula e boa parte da gestão de Dilma.
Freire conta que, na década de 1970, seu grupo recebeu muito bem a adesão de Teotônio Vilela, que se tornou, posteriormente, uma das principais lideranças na luta pela anistia. “Ele pegava em armas para combater o governo do Miguel Arraes em Pernambuco. Já pensou se a gente ficasse preso a esse passado? Da mesma forma, a ruptura de uma ala do PDS (partido do regime), que criou o PFL e se associou ao Tancredo Neves foi essencial para derrotarmos o regime no Colégio Eleitoral”, compara o deputado.
O líder do PPS é enfático ao avaliar que a ruptura do presidenciável do PSB com os petistas não foi oportunista, motivada exclusivamente pela disputa eleitoral. “Esse afastamento dele tem uma crítica com fundamento”, garante.
Para Freire, a opção do partido por Eduardo Campos pode ser explicada com o que chama de raciocínio aritmético. “Não podemos imaginar derrotá-los senão com um representante que já esteve lá. Isso escancara a má avaliação do governo. Além disso, ele apresenta características importantes para o momento. Ele é jovem e representa mudança porque fez uma boa gestão no Pernambuco”.
Aécio
Apesar de sua avaliação do cenário eleitoral, que aponta Eduardo Campos como favorito a disputar a Presidência da República com Dilma, Roberto Freire observa que a irritação dos brasileiros com o atual governo é tão grande que não se pode descartar a possibilidade de que os eleitores optem pelo campo historicamente antagônico ao PT, representado pela polarização do pleito com o PSDB de Aécio Neves.
O deputado, por outro lado, entende que o mineiro, em muitas ocasiões, não assumiu o papel de opositor aos “tempos de Lula” com o vigor esperado por parte de seus apoiadores. “Agora, ele até que está melhorando”, completa.
Degradação
Roberto Freire admite que os casos de corrupção, inclusive, envolvendo o Congresso Nacional acontecem há muito tempo. Ele mesmo participou, por exemplo, da CPI do Orçamento, durante o governo Itamar Franco. Ainda assim, justifica o rigor oposicionista ao PT com o que chama de degradação da atividade pública no País. Segundo ele, os “tempos de Lula” exacerbaram esse processo.
“A política perdeu muito de seus valores, como também perderam a democracia e a República. O Mensalão, certamente, vai expressar isso historicamente. Talvez a corrupção nunca tenha estado tão próxima do centro do poder”, pontua o deputado.
Reeleição
Neste ano, Roberto Freire buscará seu segundo mandato como deputado federal pelo Estado de São Paulo e conta com o apoio do bauruense e pré-candidato a deputado, o delegado e apresentador Alexandre Zakir (PPS). “É muito gratificante ver jovens como ele entrando na política”, pontua o parlamentar.
Zakir retribui, dizendo que Freire é uma de suas principais referências e inspirações para seu ingresso na vida pública.
Alckmin
Se por um lado, Roberto Freire faz duros ataques ao PT, demonstra bastante simpatia à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) ao governo de São Paulo. Tanto é que, para ajudar a atrair o PSB à coligação do tucano, abriu mão da disputa ao Senado Federal para a qual foi cotado.
“Houve uma pequena especulação, mas que está superada. Esse espaço (da eleição para o Senado) era importante para ampliar a aliança. Não valia a pena brigarmos por ela”, pontua o deputado federal.
Para justificar tamanho apoio à coligação de Alckmin, ele afirma que os últimos governos do Estado souberam aproveitar as oportunidades de crescimento. “Sou uma boa testemunha disso porque, como cheguei aqui em 2006, tenho um olhar de fora”.
‘Ainda sou de esquerda’, garante o deputado
A queda dos regimes socialistas ao final da década de 1980, indiscutivelmente, abalou alguns dogmas do ideário. Roberto Freire diz que se considera um homem de esquerda, mas não com as mesmas convicções do passado. “Um ponto importante é a ideia da democracia, muito ausente da nossa perspectiva marxista, que girava em torno de um partido único. Hoje, a entendo como um valor universal”.
Ele cita que a corrente na qual militava foi a que patrocinou, concretamente, a alternativa que mudou o mundo, mas foi derrotada, inclusive, por conta de seus grandes erros. “A história mostrou que aquilo não tinha futuro”.
Freire critica aqueles que chama de prisioneiros dos conceitos de Karl Marx. “Não dá para conceber o capitalismo como no século XIX. O mundo do futuro não tem como base a produção industrial. Portanto, não há que se falar em estatização dos meios nem em crescimento da classe operária. O que cresce, hoje, é o conhecimento”.
O deputado lamenta a ascensão de movimentos fascistas em países onde o regime socialista foi adotado no passado, mas vislumbra perspectivas para a esquerda em exemplos como o do Uruguai, governado por José Pepe Mujica, que discute temas como a descriminalização das drogas.
No Brasil, ele afirma que o PT foi um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento da esquerda. “Por muito tempo, eles entenderam que só o seu partido representava a esquerda. Chegaram ao poder com a retórica recheada de dogmas antigos e fizeram o contrário. A direita nacional não está no governo, mas não precisa”.