Tem se falado muito a respeito da Copa do Mundo aqui em nosso país. E, obviamente, tem que ser debatido mesmo, questionado, refletido, analisado. Penso que, antes de uma decisão de tamanha envergadura nacional, deveria ter sido fomentada uma discussão popular através de um plebiscito, que nortearia a opinião pública sobre o tema. Aliás, como diria minha mãe e outros tantos milhões sobre a realização do Mundial aqui, no reino da estrela vermelha: agora é tarde demais para chorar as pitangas. A frase popularesca, que é dita até nos mais remotos rincões, originalmente, é portuguesa: chorar lágrimas de sangue. Influenciada pelos povos indígenas, a expressão tomou para si a cor da tradicional frutinha apreciada pela nossa gente. A verdade é que os poderes constituídos da república estiveram com os olhos vendados, com os ouvidos tapados para as marchas e os gritos do povo.
Se é certo ou errado sediarmos o Mundial mais famigerado do Planeta, o resultado dirá. Não ?cola? o discurso do governo federal que diz que o investimento não sai do bolso do contribuinte. Quem vai entender isso? Quem quer concordar com isso? Não é possível impingir essa impressão para uma população que sofre com todo o tipo de mazela, que sente na carne o corte da navalha da corrupção e do imposto. Há o discurso que aborda sobre o legado que o evento deixará para a nação. Também não convence, tampouco, ameniza. Em uma contextualização superficial, o povo clama por hospitais, por creches, por escolas, por saúde. A dignidade humana passa longe das filas do atendimento médico, distante da educação de qualidade, a anos-luz da igualdade social. Vivemos em uma democracia que assassina seus cidadãos por conta da negligência política.
Todo o dia, quando vejo os noticiários, agradeço por não viver nas grandes capitais. Por ser um caipira do interior paulista. O esgotamento do sistema é evidente e, infelizmente, não há uma solução que nasça a partir do som produzido pela fricção entre o polegar e o dedo médio. Na contemporaneidade, houve uma migração mortal do planejamento para a medida paliativa, que sequer passa perto da solução. Os governantes têm apagado incêndios sem curso de bombeiro, feito curativos sem noção do que são os primeiros-socorros, remendado sem a competência de uma costureira. Estamos inseridos na falência do Estado e não sabemos onde essa nau errante irá aportar. Ou naufragar, na pior hipótese. A transferência das competências, para os municípios, da energia elétrica e segurança são provas cabais de que a administração pública está confusa, sem norte.
E, em meio a um turbilhão de especulações políticas de um ano eleitoral e a insuficiência respiratória da economia, além de protestos pelas ruas e avenidas, a seleção canarinho vai vestir as cores de uma bandeira que estampa o lema: Ordem e Progresso. Tais palavras, nunca antes, soaram tão antagônicas. Longe demais do ideal que pretenderam significar um dia. Diante disso, o patriotismo esmorece. Secando como planta que tem sede. São muitas as manifestações de quem diz que não torcerá pelo Brasil na Copa. Muito mais do que o habitual das edições anteriores. Entendo. Certamente. Todavia, jamais conseguiria torcer contra a seleção brasileira. Meu coração ? relutante ao argumento da razão ? jamais permitiria. Ensinaram-me "que um filho teu não foge à luta", por isso, acredito que vamos sobreviver, apesar de tudo e a qualquer custo.
Pensamento da semana: rola a bola no país da agonia. Nas bocas famintas e nos leitos da morte, nasce um sorriso. Porém, as barrigas continuam vazias e os hospitais tomados por filas.
O autor é vereador do PV, presidente da Associação Comercial e Industrial de Lençóis Paulista (Acilpa) e delegado municipal do Conselho Federal Parlamentar (Confep)