Tribuna do Leitor

Apenas professor


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Senhor Antônio, muito obrigado pelas referências que fez nesta coluna a meu respeito. O senhor fez com que me recordasse dos grandes momentos que passei no JC, como jornalista-articulista de cinema, teatro, reportagens, "Móbile" (grande momento!), "O aparte é nosso" (foi delicioso escrever estes pequenos textos...), muito bom! Lembrei-me dos grandes amigos do JC da Primeiro de Agosto e da Xingu, muito bom! Muito obrigado!

Senhor Antônio, quanto à homenagem, me desculpe, mas dispenso, pois nunca fiz nada além daquilo que me posicionei na vida, isto é, ser professor e diretor de teatro. Fico feliz quando meus alunos me reconhecem após 30, 40 anos dizendo "aquele foi meu professor". Fico feliz quando meus alunos de hoje ? no D?Incao Instituto de Ensino ? terceiro colegial e cursinho, conversam e agradecem! Senhor Antônio, eu tenho que optar pelo que faz o meu coração vibrar, apesar de todas as consequências.

Eu não sou exemplo e sem homenagens, na minha cabeça desobediência sempre foi a grande revolução. Perdi empregos, saí derrotado de muitas contendas, fiquei sem defesa, perseguições, acusaram-me e processos administrativos para perder de vista... mas fui desobediente, meio ovelha-negra, mas o caminho da desobediência não é estagnado, não é contra toda e qualquer ordem e alimentar raiva, ódio e desejo de vingança em relação a alguém. O caminho da desobediência é um caminho de grande inteligência.

Senhor Antônio, eu sou apenas um professor latino-americano, sem dinheiro no bolso e no banco, sempre! Sem parentes importantes..., mas trago na cabeça/ uma canção do rádio/ em que um antigo compositor/ um baiano/ me dizia/ tudo é divino/ tudo é maravilhoso/ tenho ouvido muitos discos/ conversado com pessoas/ caminhado meu caminho/ e não tenho um amigo sequer... Aprendi ao longo do tempo trabalhar sem reconhecimento, porque gosto do que faço, adoro! Meus alunos são generosos!


Eu não penso no reconhecimento, já pensei em determinado momento da minha vida, mas aprendi essa arte simples de amar o trabalho, adoro dirigir teatro e dar aulas de História do Brasil e Atualidades (hoje está difícil, seu Antônio, outros valores, outros momentos, outros ideais, perdeu-se o comprometimento!), mas eu adoro, o mundo fica mais bonito quando termino minha aula com o dever cumprido... Alguém me falou que a vida é uma tela em branco: ela se torna aquilo que você pintar nela. Você pode pintar sofrimento, pode pintar bem-aventurança. Essa liberdade é a nossa glória.

Senhor Antônio, obrigado por ter escrito essa carta nesta coluna, Thiago e Talita agradecem. Procuro passar para meus filhos que ser culto custa tão pouco. Existem criaturas, bibliotecas, universidades. É tão fácil ser uma pessoa instruída. Depois que você fica instruído, aí fica numa situação delicada, porque o ego acredita que esse conhecimento é seu, não só a instrução, mas a sabedoria... Aí você começa acreditar que sabe... Aí danou-se tudo, desculpe a colocação...


Então coloco para os meus filhos que eles têm que se livrar dessa sobrecarga e sempre entendam que a vida deve ser cercada de amor, não de medo. É isso aí! Seu Antônio, apenas professor está bom demais!

Paulo Roberto Alves Neves

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