Iniciada há quase 20 dias, a Copa do Mundo no Brasil tem muitas outras faces além do tradicional verde e amarelo que estamos acostumados. Mais do que o enorme contingente de gringos que visitam o País para ir aos estádios, há cores diferentes das alusivas à Seleção Canarinho em locais aonde a bola não rola. Em Bauru, elas estão espalhadas por vários bairros. Quem não viu bandeiras diferentes hasteadas por aí?
Mesmo sem receber seleções, a cidade também acomoda olhares (e corações) distintos sobre este grande evento. Portanto, não estranhe se o seu vizinho, por acaso, gritar gol quando você sequer estiver assistindo a algum jogo, ou (pior) em eventual descuido da zaga de Felipão.
Sejam hermanos argentinos loucos para erguer novamente o caneco após um jejum de 28 anos, colombianos orgulhosos pela surpreendente campanha na primeira fase, uruguaios confiantes após eliminarem a Azzurra ou até gregos, que ainda celebram a classificação às oitavas... torcedores com outras cores estão por toda parte.
O sangue latino de nossos vizinhos colombianos, por exemplo, pulsou forte na primeira fase. O time deu show com três vitórias e, apostam especialistas, corre por fora até mesmo para chegar à decisão do título. Quem vibrou com os gols, além da folclórica dancinha do lateral Pablo Armero, em Bauru foi a família do pediatra Jaime Alfonso Barros Zimmermann. Nascido na cidade de Riohacha, ele está no Brasil há 17 anos e, em Bauru, desde 2006. Jaime veio para o país pentacampeão do futebol mundial para fazer residência médica, no Rio de Janeiro.
“Quando terminei, tentei voltar para a Colômbia, mas a situação política e a questão da segurança estavam ruins por lá. Também não queria ficar no Rio, foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar em Gália, em 2001. Nessa época, eu já trabalhava em Bauru. Alguns anos mais tarde, em 2006, voltamos para a Colômbia, mas minha família já estava adaptada ao Brasil e voltamos para Bauru”, conta o pediatra. Casado com uma também colombiana, Jaime tem dois filhos nascidos em seu país.
Em casa
E a torcida da família saiu da frente das telas para o estádio Mineirão. Jaime levou a família toda para ver o jogo da Colômbia contra a Grécia em Belo Horizonte, no dia 14 de junho, com direito a vitória colombiana.
“Estar no estádio com a torcida do meu país foi uma experiência única. Foi como estar em minha própria pátria. Muito emocionante mesmo, principalmente na hora do hino. E, do lado de fora, os colombianos fizeram apresentações folclóricas do meu país. Valeu a pena”, emociona-se.
Herança de família
Quem passa pela avenida Duque de Caxias certamente nota uma bandeira diferente ao lado de outra bastante comum por aqui, a brasileira. Trata-se da bandeira da Alemanha, estampada no alto de um sobrado metade comercial e metade residencial, na quadra 12 da via.
A dona da residência em questão é a professora de história Neuza Krall, e torcer para o país de origem da família é mais do que um prazer, é prestar uma homenagem ao pai, já falecido. “Ele veio para o Brasil com parte da família. Em nossa casa tudo sempre foi Brasil e Alemanha, mas quando o assunto é futebol, a Alemanha vem em primeiro lugar. E, se a final for entre estes dois países, serei Alemanha que, por sinal, é favorita e não decepcionou até agora”, afirma.
Gritos de gol em vários sotaques
Eles vieram a Bauru pelo trabalho, estudos e até mesmo por amor. Mesmo estando em minoria, os estrangeiros estão mostrando que o futebol não é paixão apenas de brasileiro.
O futebol grego ainda vive do título europeu de 2004, conquistado em cima da seleção portuguesa de Scolari. Contudo, altas emoções vieram nesta Copa, com a classificação para as oitavas na suada e dramática vitória contra Gana. Em Bauru, quem torceu até os últimos minutos deste jogo foi o empresário grego Konstandinos Farganis, 59 anos, no Brasil e, em Bauru, há 11 anos.
Embora a colônia de gregos não seja muito grande na cidade, ele reúne a família e não dispensa a energia grega e a bandeira do país para torcer.
Casado com Dionicia Theodorakopoulos, brasileira filha de gregos, ele lembra que conheceu a esposa quando ela estava de viagem à Grécia, em 2003. “E vim para Bauru. Durante os jogos, reunimos alguns amigos brasileiros e descendentes de gregos em nosso empório. E está pronta a festa”, comenta o comerciante.
Da ‘terrinha’ para Bauru
Nenhum outro estrangeiro é tão familiar ao brasileiro quanto o português, seja pela língua ou por inúmeros traços da nossa cultura vindos de Portugal. Pedro Almeida é um dos portugueses que deixaram sua terra natal para se aventurar em terras brasileiras. E foi o amor por uma brasileira que o trouxe até aqui, há pouco mais de um ano. E quando o assunto é Portugal na Copa, Pedro garante que a família da esposa Anne Crippa o ajuda na torcida.
Os lusitanos até hoje devem sentir saudades de Felipão (que conduziu a equipe patrícia às semifinais em 2006). No Brasil, mesmo com o atual melhor do mundo, Cristiano Ronaldo, a equipe ficou devendo na primeira fase. Porém, mesmo com o desempenho aquém do esperado, a torcida fez festa por aqui.
“Eu nasci na cidade de Mortágua e vim para o Brasil já com a intenção de viver em Bauru, em março de 2013. Minha esposa é de Alvinlândia (90 quilômetros de Bauru), mas tem uma irmã que vive por aqui há alguns anos. Então escolhemos Bauru para viver. A Anne foi para Portugal aos 16 anos, morou lá durante 10, e foi lá que nos conhecemos. E como boa parte da família dela já viveu em Portugal, fica fácil torcerem comigo, principalmente minha sogra”, enumera Pedro.
Até o fechamento desta edição, as estatísticas apontavam que dificilmente haveria um confronto entre Portugal e Brasil nesta Copa do Mundo. Mas, se houvesse, como ficaria o casal? “Infelizmente não me parece que vá acontecer, mas se acontecesse eu iria torcer por Portugal e a Anne pelo Brasil. Depois voltaríamos ao normal”, brinca Pedro, que garante torcer pelo Brasil com a possível eliminação da sua seleção.
Um chileno entre brasileiros
“Sou o único chileno entre uns 20 brasileiros que se reúnem para ver os jogos. Então, tenho que rir, não dá para ser diferente”. Quem relata a história com bom humor é o dentista Franco Cavalla, 34 anos, que vive em Bauru desde setembro de 2013 devido ao doutorado que faz na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP ).
Segundo Franco, a intenção é ficar em Bauru até 2016 e voltar para Santiago com a esposa brasileira que conheceu na Ilha de Páscoa, no Chile, e o filho do casal bauruense, com três meses de vida. Mas e quanto ao futebol?
“Já passamos por alguns confrontos de Brasil e Chile juntos. Nós nos respeitamos, mas ela acaba rindo mais, porque o Brasil ganha mais. Já estou acostumado com essas diferenças em Copa, porque meu pai é italiano, então...”
Mas a paixão pelo futebol bate no peito do dentista, tanto que ele foi até Cuiabá e se misturou à “marea roja” (maré vermelha) chilena, contra a Austrália, no dia 13 de junho, com vitória gloriosa e olé. “Foi muito bom curtir a torcida”. Classificado às oitavas de final após ajudar a despachar a atual campeã Espanha, até o fechamento desta edição, o Chile enfrentaria o Brasil ontem (28), no mata-mata.
‘Que vença o melhor’
Desde 1986, nossos vizinhos argentinos não sabem o que é sentir o gosto de ser campeão do mundo. Embora, neste meio tempo, tenham saboreado mandar o Brasil de volta para casa mais cedo da Itália, em 1990, nossos hermanos convivem com uma amarga fila de títulos.
Além de contar com o genial Lionel Messi, a Argentina ainda tem a chance de buscar o tri justamente no terreno de seu maior rival dentro dos campos. Por falar em torcer no terreno alheio, tem gente vestida de azul e branco muitos anos antes da Copa sequer ser cogitada, novamente, no Brasil. É o caso do professor Daniel Hector Fernadez, 57 anos, no Brasil há 34 deles, quando veio para cá por motivos políticos.
Casado com uma brasileira e com dois filhos também nascidos aqui, ele aponta que em casa a torcida é dividida: “Minha filha torce comigo, já meu filho, não. Se a final for Brasil e Argentina, vou ver o jogo em Buenos Aires. Apesar de estar por aqui há muitos anos, sempre vou torcer para a Argentina, mas, se cairmos antes, claro que vou torcer para o Brasil, é o país onde vivo. Apesar das críticas, esta Copa está linda. Que vença o melhor”, defende.
Entre as histórias de torcedor, Daniel narra a Copa de 1990, final entre Alemanha e Argentina, na Itália. “Eu estava rodeado de amigos na casa de um colega. Acreditei que eles torceriam comigo, mas percebi que não queriam que fôssemos campeões. Eu me senti mal de verdade com essa atitude”, lembra.