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Zona azul: vendedores de talões denunciam guardadores de carro

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto

Funcionários da Emdurb estão sendo coagidos por guardadores de carros

Os vendedores de talonários de zona azul, funcionários da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), estão sendo coagidos por guardadores de carros nas proximidades do Poupatempo, no Centro, local que abriga um dos maiores estacionamentos rotativos do município. Na última semana, representantes da autarquia oficializaram a denúncia junto à Polícia Militar (PM), que começou a atuar na sexta-feira para coibir a ação.

 

De acordo com o major Alan Terra, da PM, a orientação é para que, além do policiamento de rotina ficar atento à prática, militares em horário de folga prestem o serviço, o que configura a atividade delegada. “Por conta da concorrência com os vendedores de zona azul, os guardadores, muitas vezes, chegam a ameaçá-los para tentar impedir a comercialização dos talonários e, com isso, garantir que o serviço que eles oferecem seja aceito pelos motoristas”, explica Terra.

 

O major acrescenta ainda que a polícia pode agir com o intuito de prevenir possíveis coações. “É uma postura social inadequada, porque gera intranquilidade. Diante disso, a PM pode agir, porque não atua apenas na segurança. Ela pode atuar com o intuito de preservar a tranquilidade pública, uma vez que posturas sociais não são cumpridas, gerando essa situação”, pontua Terra.

 

A ação da polícia ocorre por meio de abordagem e, se necessário, qualificação, fato que recebeu todo o apoio da Polícia Civil.

 

Para o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines, após uma primeira tratativa, o órgão definirá uma postura no sentido de apresentar as ocorrências e enquadrar as ações como constrangimento ilegal, ameaça ou lesão corporal, dependendo da situação exposta à polícia. “Temos de analisar cada caso, mas tudo pressupõe que haja vítimas e que elas façam um registro junto à Polícia Civil. Diante disso, estamos dispostos a colaborar, mas dentro da nossa função”, orienta o delegado.

 

Denúncia

 

Ewerton Mussi Hunzicker, diretor de trânsito e transporte da Emdurb, afirma que a intimidação por parte dos guardadores de carros ocorre tanto contra os funcionários do órgão quanto os próprios motoristas. Neste último caso, os prestadores do serviço chegam a dizer que, se não aceitarem a vigia dos carros, os mesmos serão danificados. “As pessoas, acuadas, acabam acatando”, complementa Hunzicker.

 

Em relação à coação dos vendedores, ele pontua que, para preservar a segurança deles, duas medidas foram tomadas. Os trabalhadores não passam mais de 15 dias no endereço. Outra medida foi abrigá-los em um local fixo, bem na entrada do Poupatempo, onde há grande fluxo de pessoas. “Mesmo assim, orientamos funcionários e motoristas a acionar a PM se sentirem que houve coação ou ameaça”, finaliza o diretor.

 

Quem são eles?

 

Na tarde da última quarta-feira, a equipe de reportagem do JC esteve em frente ao Poupatempo, local em que os guardadores prestam o serviço. No endereço havia três homens. Um deles acabou de cumprir pena após assaltar um banco e pedia dinheiro para voltar a Ourinhos, município em que residia antes de ser preso. Os outros dois foram flagrados guardando carros, mas a situação era bem diferente do que consta na denúncia.

 

Eles, inclusive, tinham amizade com muitos motoristas, que passavam e buzinavam para cumprimentá-los. “Eu trabalhava como empacotador de supermercado, mas saí porque enfrentei problemas com a minha mulher. Depois disso, passei a trabalhar como guardador e a dormir em pensionatos e albergues”, relata um deles, que garantiu nunca ter coagido vendedores de talonários, muito menos motoristas. “Ganho, em média R$ 15,00 por dia. Não vale a pena, pretendo buscar emprego com carteira assinada”, diz o guardador.

 

Assistência

 

De acordo com a titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, o órgão enviou uma equipe para assistir e identificar os guardadores de carros na região do Poupatempo. Para ela, o serviço configura-se como informal, ou seja, pode ser praticado, desde que não haja qualquer tipo de hostilidade.

 

“Os cidadãos que aceitam o serviço devem fazê-lo por vontade, não por obrigação”, defende a responsável pela Sebes. 

 

Darlene diz ainda que ficou surpresa diante da denúncia, já que os guardadores de carros sempre receberam uma atenção especial da pasta. “Posso garantir que essas pessoas que estão coagindo motoristas e vendedores de talonários não têm vínculo algum com o município, ou seja, elas vieram de fora. Portanto, acredito que o problema seria sazonal. Mesmo assim, nós já começamos a intervir”, reitera a titular da Sebes.

 

Mais reclamações

 

O motorista Amilton Kauffman passou por uma intimidação há dois meses, quando precisou ir até o Poupatempo. O que deveria ser apenas uma tentativa de retirar um documento, transformou-se em uma verdadeira dor de cabeça. Ele afirma que havia comprado um talão da zona azul e, mesmo assim, foi persuadido por guardadores. Inconformado, o motorista disse que não pagaria mais nada e que chamaria a PM. “Eles riram de mim. Decidi ir embora e nem acionei a polícia”, conta Kauffman.

 

O motorista não foi o único a passar pelo constrangimento. Um funcionário de uma borracharia, que preferiu não ser identificado, informou que muitos condutores chegam ao estabelecimento, localizado próximo ao Poupatempo, com um dos pneus do carro furado. “Pelo menos, três vezes por semana. Os motoristas contam que, após estacionar no rotativo do Poupatempo e negar o serviço dos guardadores, um dos pneus dos carros deles aparece furado”, declara o funcionário.

 

 

 

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