Os termômetros marcavam 9,4 graus na madrugada de ontem, a segunda mais fria do ano em Bauru. Ao relento, os moradores de rua têm um desafio: suportar mais um inverno. Para encarar a situação, o paulistano Eraldo Sousa Lima, 59 anos, se apega à sua fé. “Deus me guia”, diz.
Ele não poderia ter escolhido um “lar” diferente em Bauru. Há mais de duas semanas, passou a morar na praça do Santuário Nossa Senhora Aparecida, no Centro da cidade. Um colchão entre bancos de concreto e sob uma árvore serve como cama improvisada.
Para espantar o frio cortante da noite, cobertores e mais cobertores. “Eu até durmo bem”, conta. Por isso, ele é rigoroso ao dizer que prefere as ruas. “Me sinto livre aqui”, afirma e conta que já dispensou ajuda dos órgãos públicos.
Após se separar da mulher, com quem vivia em São Paulo, o paulistano percorreu muitas cidades do Brasil e, há 22 anos, não tem mais contato com os três filhos. “Todos eles mais lindos do que eu”, define, emocionado. “Vim parar em Bauru, a cidade mais perto da Capital, desde quando fui embora. Porém, não pretendo procurar minha família”, finaliza.
Ao contrário de Eraldo, que prefere o frio ao serviço com regras, a noite gelada resultou em um número maior de procura pelo Albergue Noturno de Bauru. De acordo com a coordenadora da instituição, Francine Tamos, a média de moradores que pedem pernoite, geralmente, é de 25 pessoas. Anteontem, contudo, o local recebeu 40 moradores de rua.
“Notamos que mais pessoas procuraram por nosso serviço. A tendência, agora, é que aumente. Hoje, temos 70 vagas e oferecemos banho, janta, além de roupa nova no lugar das que eles estão usando. Quem entra aqui, nunca sai do mesmo jeito”, orgulha-se.
Almoço
Do lado de fora do Albergue, outros moradores de rua aguardavam por ajuda ou orientação. Ivanildo Antônio da Silva, 34 anos, natural de São José do Rio Preto e que também dormiu ao relento ontem, esperava conseguir almoço. Ele contou à reportagem do JC que estava detido em uma unidade prisional de Avaré. Bauru seria uma “escala rápida”.
“Passei a noite embaixo de um viaduto e até que consegui dormir bem, pois tenho alguns cobertores. Gostaria de almoçar antes de ir para minha cidade”, disse, com as passagens de ônibus nas mãos.
Menos frio
Uma boa notícia aos moradores de rua. A previsão para o resto da semana é de elevação nas temperaturas. De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp, a frente fria que veio do Sul e trouxe tempo frio a Bauru e região deve se dispersar. Até o final de semana, a temperatura irá subir gradativamente.
Ainda de acordo com o IPMet, por conta da seca, a umidade relativa do ar continua baixa, na média de 30% a 40%. Não há previsão de chuvas para os próximos dias.
Sopão solidário
Solidariedade. Como de costume, a bauruense Maria Inês Faneco e sua equipe com 12 voluntários voltaram a praticar tal palavra. Todos serviram pratos de sopa a moradores do Parque das Nações, ontem, no final da tarde. Cerca de 200 pessoas foram beneficiadas com o tradicional “sopão”.
“Tem muita gente passando fome e frio. É uma forma simples de ajudar o próximo. É possível ver no olho deles toda a gratidão”, orgulha-se Faneco.
Sebes já doou 70 mil agasalhos só este ano
A Campanha do Agasalho deste ano, denominada “Aquece Bauru 2014”, que começou no início de abril, vem atingindo a meta, segundo a titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo. “Já entregamos mais de 70 mil peças na cidade. As doações são simultâneas e feitas todos os dias, conforme a arrecadação”, explica.
Vale lembrar que o “Varal Solidário”, instalado no Terminal Rodoviário, permanece ativo e recebe doações diariamente.
“Toda noite, nós designamos uma equipe que faz abordagem social, principalmente com o pessoal que permanece dormindo na estação ferroviária. Eles não querem sair de lá, mas nós levamos alimentos, roupas, cobertores. Fazemos trajeto nos pontos mais vulneráveis da cidade para oferecer ajuda aos moradores de rua”, reforça a titular da Sebes.
Abrigos
Ontem, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) abrigava 34 moradores de rua. “O importante é estarem agasalhados e com alimentação suficiente. E isso nós estamos fazendo”, garante Tendolo.