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Joguem limpo com o Brasil

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil cumpriu seu papel na Copa e até sobram elogios na imprensa estrangeira à organização, à receptividade do povo, às belezas naturais. Os aeroportos funcionaram, os manifestantes tiveram a consciência de se conterem e os estádios ficaram prontos. Pelo menos a drenagem dos gramados deu conta quando submetidos a chuva intensa. A Seleção chegou à semifinal, com muito sofrimento, mas também não foi diferente para os demais. Agora, que venha a Alemanha, mesmo sem Neymar e Thiago Silva. Temos que superar os imprevistos. Em 2002 ganhamos da Alemanha por 2 a 0. Foi a conquista do pentacampeonato com Ronaldo vindo de duas cirurgias no joelho. Na terça-feira, vamos precisar jogar um pouco melhor para assegurar resultado positivo contra um time sem grandes estrelas, mas compacto e disciplinado.

Há aqueles que acreditam que a boa performance do Brasil no futebol beneficiará a campanha pela reeleição de Dilma. Acho improvável, pelo próprio retrospecto histórico. O pentacampeonato a que me referi não teve nenhum reflexo no desempenho do candidato governista. Se o resultado da Copa do Mundo influenciasse na eleição presidencial, em 2002, Lula não teria vencido. Em 2006 Lula não poderia ser reeleito, pois naquele ano o Brasil foi eliminado pela França nas quartas. Em 2010, a seleção novamente frustrou, sendo eliminada pela Holanda, mas mesmo assim a candidata governista venceu a eleição. Futebol e política não se misturam. Pelo menos aqui no Brasil. O que pesa é a falta de confiança nas nossas potencialidades. Quem sabe influenciada por aquele "complexo de vira-lata" a que se referiu Nelson Rodrigues. O pessimismo pré-Copa foi excessivo. Tememos pela sua realização. "E se fosse na Copa?" Era a pergunta que se fazia a cada congestionamento nos Aeroportos. Lendo a imprensa internacional sinto uma ponta de orgulho pelas observações elogiosas ao país. O que chama a atenção do estrangeiro é o nosso estilo de vida, nossas artes, a abertura dos brasileiros às novidades e aos estrangeiros. Intelectuais brasileiros escrevem para dizer que "não é bem assim". O jornalista Felipe Araujo, no inglês Guardian, escreveu não ter visto negros entre a torcida verde-e-amarela. Explicou ao leitor inglês que isso acontece porque o Brasil é uma democracia racial, mas não democracia social. As raças convivem sem conflitos, mas as condições de vida e oportunidade não são distribuídas uniformemente. Os negros brasileiros são pobres e por isso não compram ingressos da Fifa. Há muita verdade nessa observação, mas a situação não é muito diferente nos países chamados "adiantados". Em todo lugar há pessoas sem dinheiro no bolso. Para o futebol, para os espetáculos da Broadway ou para ver a Filarmônica de Nova York. O New York Times elogiou avanços na distribuição de renda na América Latina. Para o jornal, a maior prova é a invasão de dezenas de milhares de torcedores argentinos, chilenos, colombianos e de outros países periféricos, cada um gastando, em média, mais de quinhentos reais por dia. Gente do povo.

Tirei férias para realizar um antigo desejo de conhecer New Orleans, berço do jazz e de Louis Armstrong, de "Fatz" Domino e outras celebridades do gênero do qual sou aficionado. A cidade é uma espécie de Disneyworld dos botecos, com música do vivo no chamado French Quarter, com casas de arquitetura que remontam ao período colonial francês. Atraído por monitores de tevê onde se exibia o jogo do Brasil contra o México, entrei num bar. Era um reduto de chicanos, como são chamados os imigrantes hispânicos. Nunca fui tão bem tratado. Até se solidarizaram comigo pelo empate sem gols. Elogiaram nossas belezas naturais e fizeram questão que bebesse Corona, instituição mexicana que a Ambev quer comprar, mas eles não querem deixar. Em São Paulo vi turistas fazendo "selfie" de tudo: fotos diante da pizza, de picanha e do Anhangabaú. Ninguém pretende vender este país como modelo de desenvolvimento social, mas não podemos ser tão pessimistas por causa da roubalheira. Este problema é endêmico, mas pontual. O futebol é uma metáfora para vida: às vezes ganhamos, outras perdemos. O que é preciso é que se jogue limpo com a nação. A Copa acaba, o Brasil continua.

O autor é jornalista e articulista do JC

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