Ciências

Oh, osso! Por que és tão devagar...

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

O radical quer mudanças, mas as pessoas não querem sair da zona de conforto, mostrar “rabos presos” e incoerências, por isto lutam contra mudanças. Chamam os mudancistas de “radicais” como xingamento, mas é elogio. O radical vai na raiz do problema. Se alguém chamá-lo de radical, agradeça: é elogio e apreço! Os “não radicais” deveriam aprender com o osso: mesmo duro, muda numa metamorfose ambulante.

Quatro “coisinhas radicais”: 1. A cor do colete da Fifa é de “burro quando foge”, uma mentira: eu corro de burro quando foge, pois fica violento. 2. A lua não tem brilho, rouba a luz do sol e tem gente assim: vive da luz alheia. 3. A cenoura sempre foi branca, amarela ou arroxeada. Para homenagear o rei Guilherme I de Orange na guerra da independência da Espanha, os holandeses alteraram as mudas até chegar à cor atual: são persistentes! 4. Colombo não foi o primeiro a descobrir a América e mesmo assim seu nome foi dado a um país que veio na copa para quebrar o Neymar: e por falar nisso, por que demora tanto para reparar o osso?

Nos tecidos moles

As carnes se aderem aos ossos e se chamam tecido conjuntivo ou tecidos moles. Por fora tem uma capa ou epiderme para dar aquele acabamento. Estruturalmente nossos tecidos moles parece o sagu: têm bolinhas como nossas células, com gelatina de permeio ou matriz extracelular, o ambiente onde vivem. Para dar consistência nesta matriz gelatinosa se coloca alguns fios finíssimos entrelaçados compostos por uma proteína chamada colágeno

Os tecidos se renovam toda hora e as células fabricam e reabsorvem a matriz extracelular e suas fibras. É tão constante isso, que renovamos o corpo uma dezena de vezes ao longo da vida. Quando machucamos os tecidos moles, o sangue coagula na área e forma-se um gel rico em uma rede de proteína do sangue chamada fibrina. Neste gel ou coágulo sanguíneo, as células vizinhas invadem e suportam-se nela para produzir um tecido chamado de “granulação” que em seguida vira um novo conjuntivo ou sagu. 

O gelo nas primeiras horas ajuda a diminuir o sangramento e inchaço por contrair os vasos sanguíneos, mas não atrapalha o reparo. Em poucos dias, pode se obter a reparação da área. Se ficar movimentando, o tecido que está se reparando pode rasgar, sangrar e se desorganizar de novo: vai recomeçar e demorar mais. Depois de 24h, o calor aplicado acelera o processo.

No osso demora!

O osso é tecido conjuntivo tal qual o sagu, mas a matriz extracelular ou gelatina em sua maior parte é mineralizada, dura e com pouca elasticidade. Nas fraturas, o gel do coágulo vai ser a matriz na invasão das células ósseas para reparar os danos com produção de matriz extracelular, tal qual nos tecidos moles, mas vai ter que ter um tempo maior para mineralizar e deixar duro. Deposita-se cálcio e fósforo para formar cristais e endurecer o local.

Quando se fratura os ossos, mesmo como uma trinca, vai demorar mais para religar os fragmentos. No tecido mole ocorre até em horas, mas no osso demora semanas. Se movimentar as partes fraturadas, vai rasgar, sangrar e desorganizar e tem que recomeçar todo processo com tempo maior ainda. Não adianta forçar, tem que respeitar o tempo e não colocar movimento no osso fraturado!

Cada vértebra da coluna tem duas aletas ou asinhas ósseas delicadas. Uma delas fraturou na agressão a Neymar. Esta aleta é muito delicada, mais até que o dedinho do pé, mas se ela fraturar tem que esperar algumas semanas para formar novo osso entre os fragmentos e tudo voltar ao normal. Movimentar a região dói muito por que os pedaços comprimem ou “mastigam” os nervos: ui, que dor!!!!

Quem “cola” os fragmentos ósseos fraturados são as próprias células do osso, mas elas precisam de um tempo maior para invadir o coágulo e mineralizar o local. A região reparada vai ser renovada na constante remodelação óssea que troca nosso esqueleto 6 a 10 vezes na vida. Depois da primeira renovação, não vai ficar nem sinal da fratura.

Nas frutas e na psicologia os sinais dos danos são chamados de mágoas! No osso, mágoa não existe, reparou acabou! Deve ser por isso que adoro pesquisar ossos e seu reparo: para aprender eliminar mágoas em pouco tempo, mas pena que sou aprendiz nesta arte de viver!

Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

 

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