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Eleitorado fragmentado

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Em um programa de entrevista da TV Preve, com vereadores, um telespectador fez a observação de que todo mundo reclama que Bauru não consegue eleger mais deputados. Já faz tempo que temos apenas um deputado estadual e nenhum federal. E perguntou: por que são apresentados tantos candidatos? Não seria melhor ter um número menor, para aproveitar melhor os votos? O comentário que se seguiu foi que é muito difícil, porque são muitos os partidos e há exigência superior para os diretórios apresentarem candidatos próprios. Também há o caso das igrejas que querem ter representação política.

Eleitorado não falta, porque Bauru já tem mais de 250 mil eleitores, e daria para eleger até dois deputados estaduais e dois federais, mas se somarmos os candidatos locais com os que vêm pescar votos aqui, os votos ficarão pulverizados. Para compensar seria necessário que os candidatos locais pudessem contar com votos da região, mas parece que não é o caso. A solução, se na prática fosse viável, seria fazer coligações locais sobre nomes que demonstrassem maior potencial, pela projeção na cidade e penetração regional. A pressão da cúpula partidária e a vaidade de ter o nome indicado, contudo, acabam por criar um número excessivo de candidatos com remotas possibilidades de se eleger.

Enquanto no município as coligações são difíceis, nos planos federal e estadual elas chegam às raias do absurdo, com inimigos viscerais se abraçando e se elogiando. A Folha trouxe uma página inteira com o título: ?Bacanal Eleitoral?, mostrando as coligações dos candidatos à presidência com um gráfico bastante ilustrativo. São três colunas ? na primeira estão os três candidatos; à direita estão os candidatos a governador e na terceira coluna estão os partidos que formam as coligações. Como as coligações seguem os interesses locais, permitindo que um partido que apoia um candidato num Estado, apoie outro em outro Estado, os principais partidos aparecem repetidos, formando um emaranhado de fios que se cruzam. São128 conexões para a Dilma, 87 para Aécio e 52 para Campos. Aos mais velhos a figura lembra as antigas estações telefônicas, com a trama de fios plugados no painel.

Bauru tem uma história de representação parlamentar curta. Veio a ter o seu primeiro deputado estadual 55 anos após a sua emancipação, e o primeiro deputado federal 23 anos depois. A primeira voz a falar por Bauru na Assembleia foi a de José Ferreira Keffer, um mineiro casado com uma bauruense. Depois vieram: Nicolinha (Nicola Avallone Júnior), Nilson Costa; Abrahim Dabus; Roberto Purini; Osvaldo Sbeghen; Pedro Tobias, até hoje e Carlos Braga. Deputados federais: Alcides Franciscato, Antonio Tidei de Lima e José Gualberto Tuga Angerami. Há 15 anos não temos deputado federal. Como se vê, têm razão aqueles que reclamam da falta de união por Bauru para termos uma representação parlamentar na medida de suas necessidades. Com o atual sistema tributário, em que os municípios dependem mais dos repasses federais e estaduais do que da receita própria, a falta de representação nas esferas mais altas afeta mais as cidades de crescimento maior que a sua economia, como Bauru.

A falta de liderança política local tem feito a cidade agarrar-se a alguns líderes de fora, que aqui encontram apoio para manter-se no poder. É aí que a cidade sente falta de homens como Franciscato, que levam poder ao mandato, ao contrário da maioria que busca poder no mandato. A isso o cientista político Leôncio Martins Rodrigues chama de ?popularização da classe política?, em livro que acaba de lançar com o título "Pobres e Ricos na Luta pelo Poder".

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos
Jornalistas de Bauru.

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