Articulistas

Assim no campo como na vida

João Jabbour
| Tempo de leitura: 3 min

Por que ?Inacreditável", como está lá no alto da primeira página desta edição? Porque o ufanismo e o triunfalismo fugazes que usamos como ópio às nossas amarguras e incertezas e tapa-olho aos nossos graves defeitos nos cegam quanto às nossas limitações e nos impedem de alcançar a evolução necessária em todos os processos da vida, futebol entre eles. Resultado: decepções e espantos desta magnitude. Certo que perder por 7 gols não é comum, mas é o mais irônico reflexo de tudo o que não fizemos e do que omitimos de nós mesmos esse tempo todo. Até o momento em que a 7ª Divisão Panzer alemã nos mostrou que estava infinitamente mais preparada e evoluída para a ?batalha? de uma semifinal de Copa do Mundo, enquanto dormíamos no ?berço esplêndido? do País do futebol, como se isso, por si só, nos garantisse vitórias.

Vamos olhar para eles. O técnico alemão Joachim Löw prepara esta equipe para jogar o que está jogando há pelo menos 8 anos. Ele foi assistente de Jurgen Klinsmann na Copa de 2006 e ficou em terceiro no Mundial, em casa. Logo depois, herdou o cargo. Foi de novo terceiro na África do Sul. Nesse tempo, também não teve sucesso na Eurocopa. Mas seu País é, certamente, bem resolvido quanto a certas posturas, pois já viveu situações-limite drásticas, como uma derrota esmagadora em uma Guerra Mundial e a cruel experiência do nazismo. O planejamento, o estudo apurado e a competência na execução certamente estão entre as virtudes desta nação. O resultado está aí, refletido também no futebol. Uma estabilidade estruturada que não se parece nem um pouco com a turbulência e inconstância da vida brasileira, materializada no emblemático emprego de técnico da Seleção. No Brasil, no mesmo período em que Löw preparava sua ?máquina de jogar?, nossa Seleção teve três comandantes: Dunga, Mano Menezes e Felipão. Pior do que isso: nunca teve uma planificação estratégica de médio e longo prazo. Por isso é dependente até o pescoço do talento de um só jogador.

Não temos a pretensão de fazer qualquer análise científica do ?Mineirazzo? e nem de explicar com exatidão o espanto que se encerra em nosso peito juvenil neste momento. Afinal, é bom lembrar que se trata ?apenas? de uma partida de futebol. Um jogo, sujeito, portanto, às incongruências do acaso, ou da sorte, como queiram. Mas é inevitável traçar um paralelo entre o que ocorre no futebol, particularmente no jogo de ontem, e o que se passa neste enorme ?tapete verde? com 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados que é o Brasil.

O mundo globalizado permite a todos ?conversar? com todos e abstrair com mais rapidez suas qualidades. Mas nada que seja louvável na história de um povo ocorre por magia, por encanto, somente por vocação ou, enfim, apenas pela vontade que aconteça. É preciso muito trabalho, esforço consequente, estruturado em bases sólidas, pactuado com a sociedade, por vezes rompendo com estruturas envelhecidas e com tempo para que os resultados ocorram. Há um a semelhança muito marcante entre como o futebol é (des) organizado em clubes, federações e confederações e como a vida nacional é (des) estruturada a partir da política e de nossa acomodação civil.

"Um jogo para esquecer", disseram alguns, ontem. Muito pelo contrário. Um jogo para ser lembrado por muito tempo. Tempo durante o qual estaremos aprendendo a construir um time e um país fortes e bem resolvidos, a partir de bases sólidas - com firmeza, mas com serenidade; com alegria, mas com sabedoria; com ousadia, mas com respeito uns pelos outros, como os alemães aprenderam a fazer e demonstraram ao final da partida, quando chegaram até a se constranger com a tragédia brasileira, para depois comemorar com lucidez e comedimento.

O autor é diretor de redação do Jornal da Cidade

Comentários

Comentários