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Crônica de uma vergonha

Silvio Motta Maximino
| Tempo de leitura: 3 min

Não, caro leitor! Não falaremos de Copa do mundo. Refiro-me a outra goleada, sofrida por todos nós brasileiros, desde os ?primeiros minutos de jogo?. Mal havia começado a partida e já estávamos perdendo feio... Notem que ninguém sério duvida que o pilar básico de sustentação de qualquer nação civilizada seja a Educação. Estou perplexo, triste e legitimamente envergonhado. Primeiro gol contra: jamais tivemos sequer um ?sistema educacional?. O primeiro projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional só foi enviado ao Congresso em 1948, e aprovado tardiamente apenas em 1961, aos trancos e barrancos.

O temível ?cartão amarelo? já nos assombrava há tempos: Em 1538 nascia a primeira universidade das Américas. Depois vieram as do Peru (1551), México (1553), Argentina (1613), Estados Unidos (1636), Colômbia (1662), Cuba (1728) e Chile (1738). E eis que já veio o segundo gol contra: embora contássemos aqui em 1822, com 3.000 bacharéis, eles eram formados na França, Inglaterra e Portugal. Quando finalmente surgem nossas primeiras universidades (1920 e 1934), já havia pelo menos 78 universidades espalhadas pelos Estados Unidos, além de outras 20 pela América Latina.

Terceiro gol não demorou: Mesmo após o advento da República, antes mesmo do final do ?primeiro tempo do jogo?, nenhuma mudança tática significativa. Então, o resto é história: apanhamos vergonhosamente. Nem bem respiramos e lá veio o quarto gol: os afrodescendentes do período pós-abolição eram livres só na letra morta da lei. Segundo o registro oficial da população escrava nacional (em 1872), mais de 1,5 milhão de brasileiros foram jogados à sarjeta, sem direito a indenização, sem qualificação, sem alfabetização, sem ?escalação?. Rima maldita! As estatísticas não mentem: ocupamos hoje o 58º lugar (numa lista de 65 países), segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. Negando a realidade dos fatos, levamos o quinto gol: Nosso ministro, quando questionado por jornalista, tem a desfaçatez de afirmar: "estamos melhorando (...)".

Assistimos aqui, ?jogando em casa?, ao sexto humilhante gol: a partir da década de 60, algo mais vexatório que o massacre de 08 de julho de 2014. Despencam a qualidade do Ensino e o próprio salário do profissional educador (que era similar ao salário de um juiz de direito em 1960) a níveis ?nunca vistos na história desse país?. Materializado o pior dos pesadelos, como fazer para recuperar a autoestima deste povo?

De lá para cá, civis reassumiram o Poder... depois, até quem se dizia da ?Esquerda? assumiu o Poder. A qual ?técnico ou jogador? culparemos desta vez? Qual a causa de tão vergonhoso espetáculo dessa nossa ?seleção? de políticos, juízes e administradores?

O sétimo gol revela o que agora todos já sabem: não havia nenhum ?esquema tático? pensando seriamente a questão da Educação.

Ao ?torcedor? fica o alerta: de nada resolverá cair no conto do ?voto de protesto?. O mito do voto de protesto encanta aos analfabetos políticos. Mas não notam que isso equivale a ?rasgar o ingresso? de entrada, antes mesmo do campeonato começar, só porque não gostam das regras ou da escalação do time que vai jogar. Por que você eleitor não pergunta ao candidato, o que ele vai fazer pela Educação? Comprometa-o! Depois, não fique parado feito poste dentro de campo, esperando o desastre... E mexa no seu time! Cobre e monitore seus representantes! Chame a responsabilidade! Façamos cada um a sua parte, que todos só tem a ganhar! Pense nisso!

O autor é professor de filosofia e antropologia

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