João Rosan |
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Ele abandonou o sonho juvenil de se tornar médico para realizar outro: entrar para o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da PM, onde tem 90 policiais sob seu comando |
O sonho de tornar-se médico foi esquecido quando, em 1999, o bauruense Ricardo Orlandi Folkis ingressou no Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar do Estado de São Paulo. O grupamento, um dos mais modernos do País, atua em situações consideradas de alto risco, como resgate de reféns, incursões em locais perigosos e desarmamento de bombas.
À frente do Gate desde maio de 2012, o capitão Folkis comanda aproximadamente 90 homens. Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade durante visita a Bauru, ele relembrou sua infância e adolescência na cidade, a morte do irmão mais velho, Evaldo, em 2008, e contou como a perda de alguém tão próximo fortaleceu os laços familiares.
Também falou a respeito do trabalho realizado pelo grupamento durante a Copa do Mundo e não se furtou a explicar a polêmica ocorrida no primeiro dia do evento, em que um atirador de elite da Polícia Civil pediu autorização para abater um suspeito dentro da Arena Corinthians - que, depois, foi identificado como sendo um PM do Gate.
Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Quais são as principais frentes de atuação do Gate?
Ricardo Orlandi Folkis - São duas: ocorrências com explosivos e com reféns localizados. Esta última envolve crimes em que pessoas são tomadas como reféns e em que há necessidade de negociação para rendição do autor e liberação das vítimas. Em casos excepcionais, também somos chamados pelo comando da PM para missões especiais, como operações de busca e apreensão em conjunto com a Polícia Federal.
JC - O Gate fica sediado em São Paulo, mas atua em todo o Estado. Quais são as principais demandas no Interior?
Folkis - O atendimento a ocorrências de explosão em caixas eletrônicos, em que enviamos uma equipe mínima de três homens. O Gate sempre precisa ser acionado porque, em 90% dos casos, restam artefatos intactos. Mas, mesmo que todos os explosivos tenham sido detonados, o grupo precisa fotografar o local e emitir um relatório.
JC - Como foi a preparação para a realização da Copa e qual o trabalho do Gate para garantir a segurança no evento?
Folkis - No Estado, o planejamento começou há cerca de dois anos, período em que realizamos uma série de reuniões envolvendo o comando da Polícia Militar, Exército e Polícia Federal. O Gate ficou responsável por fazer as varreduras nos locais onde ficariam hospedados chefes de Estado e delegações, bem como outros locais que seriam utilizados por estas pessoas, como centros de treinamento. Mas, como eram muitos espaços, a tarefa foi dividida com a Polícia Federal.
JC - E nos dias de jogos na Arena Corinthians?
Folkis - Destacamos uma equipe de pronta-resposta, formada por aproximadamente 15 homens. No primeiro jogo, entre Brasil e Croácia (no dia 12 de junho), por exemplo, o sistema de monitoramento da Fifa encontrou uma mala abandonada em uma arquibancada. O Gate foi acionado, mas em seguida apareceu a dona, uma mulher que tinha participado da abertura da Copa e tinha levado a mala para guardar a fantasia.
JC - Foi neste episódio que um PM do Gate quase foi abatido por um sniper (atirador de elite) da Polícia Civil?
Folkis - O que a imprensa publicou é uma meia verdade. O policial civil não avistou um possível suspeito à distância, porque ele estava do nosso lado e nos cumprimentou. Não sei com qual objetivo ele quis divulgar esta história para os jornais. O policial do Gate tinha autorização para estar naquela área e averiguar o que havia naquela mala. No local, estavam também policiais federais e fotógrafos credenciados. Ficamos surpresos e assustados com toda essa história e estamos averiguando o porquê da atitude deste policial, que tinha cumprimentado o policial do Gate e sabia quem ele era.
JC - Como sua trajetória teve início na Polícia Militar?
Folkis - Quando jovem, eu queria ser médico. Prestei vestibular para algumas faculdades de medicina e fui aprovado, mas também fui aprovado na Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Fiz o curso de 1994 a 1997 e, aspirante, fui trabalhar na Tropa de Choque, em São Paulo. No final de 1999, já promovido a segundo-tenente, me formei no curso de Ações Táticas Especiais e ingressei no Gate.
JC - E quando você voltou a Bauru?
Folkis - Em maio de 2003. Minha avó materna estava doente e minha mãe, que é filha única, estava precisando do meu apoio. Então, pedi a transferência para Bauru. Entre 2003 e 2010, trabalhei no Comando de Força Patrulha da cidade e fui comandante dos pelotões de Agudos e de Lençóis Paulista.
JC - E como ocorreu a volta ao Gate?
Folkis - Surgiu um convite e aceitei. Ainda era tenente e trabalhei como subcomandante do grupo. Em 2012, fui para a Colômbia para fazer um curso de operações especiais com foco em antissequestro e fui promovido a capitão. Assim que voltei, assumi o comando do Gate.
JC - Você vem com frequência a Bauru? Até mesmo enquanto teve a Copa, conseguiu ‘fugir’ para ver a mãe?
Folkis - Venho uma vez por mês. Desta vez, vim porque, no dia 4 de julho, é aniversário de morte do meu irmão mais velho, o Evaldo, que faleceu em um acidente de moto, em 2008. E meu outro irmão, o Roger, é dentista em Porto Velho (RO), mora longe. Mas só consegui vir porque não tinha jogo em São Paulo.
JC - Você parece ter uma ligação forte com a família.
Folkis - Eu fui praticamente criado pelos meus avós maternos, porque minha mãe era professora estadual em Jandira. Ela saía de Bauru no ônibus da meia-noite e chegava às 5h para subir uma ladeira de 800 metros até a escola onde ela dava aula. E dava todo o salário dela na mão dos meus avós. Tenho um laço muito forte com minha mãe e, depois da morte do meu irmão, me tornei mais família ainda. É uma dor que ameniza com o tempo, mas nunca acaba. E a gente tenta superar juntos.
JC - Quais são suas melhores lembranças de Bauru?
Folkis - Fiquei aqui até meus 21 anos. Eu gostava muito da vida noturna da cidade. Também jogava basquete na Luso. Joguei por sete anos, na minha infância e adolescência, mas nunca pensei em me profissionalizar.
JC - A carreira militar é uma tradição na família? Qual o seu grau de parentesco com o Fernando Folkis, que serviu na guerra do Iraque?
Folkis - Ele é meu meio-irmão, filho do meu pai, que se separou da minha mãe quando eu tinha 2 anos. Em 1994, meu pai se mudou para Salt Lake City (EUA) e, sempre que eu estava em férias da Academia do Barro Branco, ia visitá-los. Sempre mostrava vídeos do Gate na Internet e acho que isso o influenciou de alguma forma. O Fernando foi fuzileiro naval no Iraque, participou das buscas ao Osama bin Laden no Afeganistão e da ajuda humanitária às vítimas do terremoto no Haiti. Mas, depois, acabou abandonando a carreira militar.
JC - Ser comandante do Gate já era uma meta naquela época?
Folkis - Meu sonho era ser comandante do Gate ou piloto do (helicóptero) Águia. Tenho o maior orgulho da minha profissão, embora a Polícia Militar seja, muitas vezes, vidraça da sociedade. Mas o importante é colocar a cabeça no travesseiro toda noite com a consciência tranquila. Eu acredito que você atrai aquilo que pensa. Para mim, todo dia é um bom dia, mesmo diante das situações mais críticas. Passei a pensar assim quando perdi meu irmão.
JC - Você é casado com uma jornalista. Vocês se conheceram por conta da sua atividade profissional?
Folkis - Sim. Conheci a Veruska Donato (da TV Globo) em 2011, em uma entrevista que eu dei sobre explosivos. Pedi a ela que me avisasse quando a matéria fosse para o ar, aí trocamos telefone, começamos a nos falar, saímos para jantar e estamos juntos até hoje.
JC - Tem planos para ter filhos?
Folkis - Ela já tem uma filha, de 10 anos, que mora com a gente, então já tenho uma relação próxima com criança. Mas não quero filhos. Acho que sou um pouco egoísta neste ponto. Quero curtir minha vida ao máximo.
JC – Você já vive seu maior sonho. Há algum ainda a conquistar?
Folkis - O profissional eu já conquistei. O comando do Gate é um posto muito almejado dentro da corporação. Hoje, meu sonho é ver um Brasil mais decente, honesto, sem tanta corrupção e tanta coisa jogada para debaixo do tapete. Quero um Brasil melhor para as próximas gerações.
Perfil
Nome: Ricardo Orlandi Folkis
Idade: 41 anos
Signo: Áries
Local de nascimento: Bauru
Hobby: ir à academia
Livro de cabeceira: “A cabana”, de William P. Young
Filme preferido: “Seven - Os Sete Crimes Capitais”, de David Fincher
Time de futebol: Palmeiras
Estilo musical predileto: sertanejo
Para quem você dá nota 10: para meu irmão Evaldo (falecido em 2008)
Para quem você dá nota 0: para a política brasileira
E-mail: folkis@policiamilitar.sp.gov.br
