Ciências

Corrimento causa câncer de próstata?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Reprodução Internet

Parasita Trichomonas vaginalis (*) aderidos às células epiteliais da mucosa

O corrimento vaginal representa um dos sinais da “Tricomoníase”, uma doença induzida pelo parasita Trichomonas vaginalis que pode ser a causa do câncer de próstata agressivo! Sim, pode e novos resultados devem confirmar as evidências apresentadas em trabalho na revista “Proccedings of the National Academy of Sciences”.

Os resultados podem contribuir para conhecimentos que irão revolucionar a compreensão por que tantos homens tem câncer de próstata. Nos EUA, o câncer de próstata é o mais comum quando se exclui o câncer de pele. Em alguns países varia entre o primeiro e o quinto mais frequente. Tanto mulheres, como homens, devem tomar precauções para evitar a tricomoníase, contribuindo-se para a prevenção do câncer de próstata, além das consequências indesejáveis da doença.

Na mulher, a doença provoca mal cheiro e secreções espumosas verde-amareladas em roupas íntimas, sendo abundantes apenas em 20% das contaminadas: daí o seu nome popular de corrimento. No homem a doença não apresenta sintomas, permanecendo indefinidamente em seu corpo e repassando às suas parceiras e parceiros. Nos homens, o parasita Trichomonas vaginalis penetra via canal uretral, infecta o epitélio, coloniza a glândula e se associa a um aumento do câncer de próstata agressivo.

A pesquisa

Pesquisadores estadunidenses, italianos e argentinos liderados por Olivia Twu na Universidade da Califórnia descobriram que o Trichomonas vaginalis secreta uma proteína chamada Tv-MIF. Esta proteína do parasita é 47% parecida em sua estrutura com uma proteína humana: a Hu-MIF.

Acontece que esta proteína está muito aumentada no câncer de próstata e nas inflamações representando um dos mais importantes agentes na iniciação e progressão das neoplasias malignas. Quando as células da próstata encontram-se com esta proteína Hu-MIF, ela liga-se a um receptor “CD74-MIF” como em uma tomada elétrica. Imediatamente esta ligação inicia formas bioquímicas de ativar genes relacionados ao desenvolvimento de câncer como o ERK, Akt e Bcl-2.

Os pesquisadores citados logo perceberam o elo de ligação: a proteína secretada pelo parasita da tricomoníase, a Tv-MIF, faz a mesma coisa, aumentando a proliferação, transformação e invasão das células do câncer de próstata em culturas de laboratório. Os dados indicaram que a presença constante do Trichomonas vaginalis na próstata pode resultar em inflamação e proliferação celular ligadas a vias da iniciação, promoção  e progressão do câncer agressivo. Como a tricomoníase no homem é assintomática, o parasita persiste indefinidamente na próstata e ao longo do tempo acaba por induzir o câncer.

Impacto

Quando comecei estudar câncer, nem se falava em vírus como uma de suas causas em humanos. Hoje sabemos: muitos tipos de cânceres podem ser provocados por vírus, tal como o HPV. Nem se imaginava relacionar bactérias com câncer e se o fizesse era uma heresia científica. A úlcera de estômago e intestino era relacionada ao câncer e com o tempo foi se mostrando que estão associadas à bactéria Helicobater pylori, e hoje, trata-se com antibióticos.

O tão comum câncer de próstata pode ser agressivo. Há controvérsia se deve ou não operar, pois em alguns casos a evolução é extremamente lenta, sem afetar a qualidade de vida: o paciente morrerá por outras causas, mas não pelo câncer de próstata detectado, especialmente nos idosos.

Acredita-se que todo homem com 70-80 anos tenha câncer de próstata. Mas será que todas as próstatas evoluem para câncer? No trabalho sobre a proteína do parasita da tricomoníase induzindo neoplasias malignas, abre-se uma nova perspectiva fora deste fatalismo: necessariamente teremos câncer de próstata se sobrevivermos até os 70-80 anos! E se não formos contaminados por este parasita?

Taí: a tricomoníase é a doença sexualmente transmissível não viral mais frequente do mundo e o uso de preservativos e uma vida sem promiscuidade são os caminhos para sua prevenção. Nunca devemos esquecer o critério de promiscuidade sexual da Organização Mundial de Saúde: mais do que dois parceiros por ano! Fora disto, é limbo do risco biológico!

Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru.

Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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