Há uma longa trajetória que distancia craque de crack. Iguais na pronúncia, distintos na escrita e praticamente "antônimos" na realidade. O craque, aquele ser admirado, bajulado, cheio de fãs. Enquanto o usuário "crack", conhecido como nóia - um ser marginalizado e excluído pela sociedade. Apesar do tema ser Copa do Mundo, não quero falar dos atletas, já que esses craques têm atenção suficiente nos telejornais, sites, revistas de fofoca e afins. Hoje, os holofotes são para o crack, essa é a bola da vez que está em jogo, acredito que é uma partida social importante e precisa ser vencida. Difícil, mas que necessita ser ganha, afinal todos sofrem com ele, tanto usuário quanto sociedade. Infelizmente, não nos resta só torcer como em uma partida de futebol, o lance aqui é entrar em campo e pedir providências ao poder público.
Outro dia, caminhando por uma rua, avistei um "nóia" que vinha em minha direção, quando percebi que ele estava sob efeito de droga, mudei o trajeto rapidamente, mas segui com a imagem daquele homem/menino na minha cabeça. Ele já estava com a fisionomia tão consumida que não soube nem ao menos arriscar a idade dele. A aparência franzina denotava ser um adolescente, enquanto o rosto sofrido já parecia ser um homem balzaquiano. Acho que como eu todos seguem o mesmo "modus operandi", afinal o medo de sofrer uma violência fala mais alto e o desvio de rota acaba sendo nossa alternativa emergencial.
Por sorte, eu não fui vítima de nenhum nóia, mas o que vejo em Bauru é que o número deles aumenta exorbitantemente. Infelizmente, não são apenas os pedestres ou motoristas que desviam?se deles. Parece que o poder público também tem o mesmo comportamento. Só resta perguntar até quando? Será que vão esperar até os 45 minutos do segundo tempo para definitivamente assumir que há um problema social.
De um lado, a sociedade sofrendo de "noiafobia". Do outro lado, os usuários, vítimas de um reflexo socioeconômico que sofrem pelo descaso, em relação a dependência química, e o poder público, onde está nesse jogo? Certamente que na arquibancada assistindo aumentar o índice de criminalidade em Bauru e o número de usuários que recorrem ao "crack" como único socorro.
Uma partida difícil, mas se a população não resolver também fazer sua parte e exigir providências reais, e não mascaradas, todos irão continuar sofrendo os reflexos disso. Esqueça o jogo do Brasil, vamos encarar as partidas que estão ao nosso alcance. O jogo é contra o "crack" versus a inércia do poder público, não vamos errar na escalação. Infelizmente no país do futebol se não usarmos dessa artimanha e fazer uma analogia logo no título certamente teríamos menos pessoas dispostas a parar uns minutinhos até para ler esse texto.
O mundo se diz politizado, mas ainda continua enxergando os problemas sob a visão do que está dentro de campo e é exibido em horário nobre ao invés de perceber o que realmente está em jogo. Neste caso, a vida... a minha, a sua e a deles! De que adianta sabermos de craques, se em meio a correria do dia a dia nos comportamos como amadores quando o assunto é "crack". Bora entrar em campo e conquistar a vitória contra o "crack", uma visão utopista, mas se for possível reduzir os números já será um grande prêmio e teremos o gostinho de ser "craque" na hora de exigir nossa cidadania. Vilão e mocinho se enquadram em papéis de novela, na vida real os personagens se mesclam o tempo todo e, nem tudo que parece ser realmente é.
A autora é da equipe JCNet