O patrono da biblioteca de Lençóis Paulista além de escritor era um colecionador de objetos, observa o diretor municipal de Cultura, Nilceu Bernardo.
“Ele colecionava de tudo, caixa de fósforo, caneta, guardanapos. Tinha um caderno de autógrafos com assinaturas de Di Cavalcanti, Cecília Meirelles dentre outros. Temos algumas dedicatórias e frases emocionantes como a de Raquel de Queiroz: “... no momento que entrei nessa biblioteca, tive vontade de fazer como o papa e beijar o chão, afinal também é um solo sagrado”.
Já Drummond de Andrade, em uma de suas correspondências a Orígenes Lessa, pede para ser um pouco lençoense. “Onde Lessa ia, falava de Lençóis. Era um apaixonado e dizia que a biblioteca era a vida dele. Em Paris teria dito que o lugar era lindo, mas não tinha o charme de Lençóis. Chegou a ser apelidado de fantasmão porque carregava lençóis com ele. O Ziraldo fez várias charges dele.”
Temos uma coleção de óculos de escritores como Olavo Bilac, Guimarães Rosa dentre outros. Canetas e manuscritos. “Do Origenes Lessa temos uma capa e o chapéu napoleônico com plumas que compõe um determinado momento da cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras. Temos calça, sapatos , camisa, o fardão foi com enterrado com ele”, diz Bernardo.
O mais antigo manuscrito da Casa de Portugal assinado por D. João V está na vitrine de um armário. “Temos uma vitrine com um pouquinho do que a gente tem no acervo, documentos, o mais antigo é uma preciosidade. Há muitos manuscritos, indicações, correspondências temos uma troca de correspondências , de Orígenes Lessa com Jorge Amado. Fizemos uma parceria coma fundação do escritor baiano e trouxemos 30 correspondências deles. Com as que já tínhamos, somamos 130 cartas.”
‘Letra terrível’
Todos os manuscritos do Orígenes Lessa estão na biblioteca. “Ele tinha compulsão por escrever. A letra é terrível, mas escrevia em qualquer papel que encontrava pela frente”.
Sobre a letra do escritor lençoense, Jorge Amado, teria dito em uma das cartas que já não estava “decifrando”, por isso, o melhor era o amigo datilografar.”
De Cora Coralina, a biblioteca guarda com carinho o acervo escrito e fotos. “Uma pedra que ela usava como peso para segurar os manuscritos enquanto escrevia. Uma canequinha que ela tomava café e um xale português.” A biblioteca também está no Facebook. Mas, essa, já é outra boa história.
Quem frequenta bibliotecas?
Carlos Eduardo Sardinha Martins, 18 anos, considera o ambiente propício para os estudos. “Em casa não tem o mesmo silêncio e, assim, perco a concentração.”
Madalena Silva Morais de Vasconcelos estudou até o 3º colegial. Tem duas filhas, a caçula de um ano e a mais velha, de 9 (Larissa e Melissa). Mora no bairro Itapuã e frequenta biblioteca ramal. “Minha filha pede sempre para eu trazê-la. Quer livros. Hoje, ela está levando o ‘Diário de um Banana’”. Seja qual for o estilo, está aí a literatura frutificando.