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A arte do embuste

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A política é a arte do embuste. Deste conceito ninguém discorda. Tem sido repetido por estadistas desde os antigos romanos. Robespierre advertiu seus concidadãos sobre os bastidores obscuros da luta pelo poder. Disraeli concordou com ele. Churchill ainda procurou minimizar o modus operandi antiético de quem se dispõe a postular votos, com aquela tirada famosa sobre o mal da democracia - "o pior dos regimes, exceto os outros". Terminada a II Guerra Mundial e consagrado herói por ter salvado a Inglaterra dos bombardeios alemães, Churchill guardava esperança no aperfeiçoamento da democracia, na medida em que os eleitores se tornassem mais exigentes quanto ao comportamento dos seus sufragados. A honestidade de nada lhe serviu. Perdeu a eleição mesmo sendo herói de duas guerras mundiais, de ações militares na Índia, no Sudão e na Guerra dos Boêres e ex-primeiro ministro nos anos de sangue, suor e lágrimas As coisas devem ter melhorado na "velha Álbion", o nome céltico como os jornalistas de antigamente se referiam à ilha britânica. Os escândalos evolvendo políticos que de lá ressoam acontecem na cama, sob lençóis. A diferença é que aqui, na velha Pindorama, os fatos negativos envolvendo representantes do povo custam muito dinheiro, subtraído dos brasileiros. Inclusive as amantes Quem sabe ainda haveremos de exigir uma postura mais adequada aos nossos políticos, castigando nas urnas aqueles que não se comportam.

O Congresso Nacional, por exemplo, segue se mostrando pouco preocupado em dar exemplos de compromisso e austeridade. A mais recente provocação à sociedade foi a decisão da Câmara e do Senado de entrar numa espécie de recesso branco pré-eleitoral. Um aspecto grave é que, pelo segundo ano consecutivo, os parlamentares encerram o semestre sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, uma exigência tanto da Constituição quanto dos regimentos internos do Congresso. O outro é que, sem o compromisso formal de participar de votações até as eleições, deputados e senadores continuarão recebendo seus vencimentos integrais. Isto faz com que, além de ilegal, a manobra se mostre dispendiosa.

Além do atraso na votação do orçamento o recesso branco reduz as possibilidades de avanços nas CPIs da Petrobras. Votações importantes como o Código de Processo Civil e o projeto que muda o indexador das dívidas de estados e municípios tendem a ficar para só depois das eleições. Mesmo dispensados de comparecer às sessões deliberativas, os parlamentares continuarão recebendo integralmente seus vencimentos de R$26,7 mil, pois as ausências não são registradas como faltas. Isso faz com que, mesmo de férias, o Congresso tenha um custo de cerca de R$ 1 milhão por hora, conforme os cálculos da ONG Contas Abertas.

Eleições de dois em dois anos custam muito caro à nação. Deveríamos realizá-las de uma só vez, a cada cinco anos, para eleger de vereador a presidente da República. Segundo relatório do Tribunal Superior Eleitoral, os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves orçaram suas campanhas em R$ 588 milhões, somadas. Todos os candidatos à presidência vão gastar R$ 870 milhões. As projeções dos especialistas, tendo por base o quanto foi gasto em 2010, indicam que as eleições deste ano custarão R$ 9 bilhões e 700 milhões. A dinheirama a ser despendida por todos os candidatos é a declarada oficialmente ao TSE. O "por fora" não dá para calcular. O trágico é que todos nós sabemos que os candidatos pouco se utilizam do dinheiro do próprio bolso. Comumente são financiados pela "caixinha", uma espécie de repositório das propinas por favores prestados, ou pela promessa de futuras benesses. Quem paga é sempre o povo.

A legislação eleitoral tornou-se mais rígida. Proíbe inaugurações, convênios e outros recursos de uso político. Camisetas, bonés, dentaduras, cestas básicas e qualquer outro tipo de aliciamento foram vedados. O grande palco da disputa eleitoral se dará na mídia. Até o início do horário eleitoral - principal palanque da sucessão e por isso o item mais caro -, no dia 19 de agosto, a mídia tem o papel de protagonista principal, incluindo-se a internet com suas redes sociais. Acabou a Copa. O jogo é bruto. O tema eleição vai ocupando, pouco a pouco, o espaço do futebol. É importante saber o que eles, políticos, estão dizendo. Quem sabe seja quebrado aquele círculo vicioso de todas as campanhas eleitorais: vence aquele que prometer mais com a menor possibilidade de cumprir o mínimo.

O autor é jornalista e articulista do JC

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