Mostra-nos a mídia um ex-médico portando um imenso e tosco cajado, andando a esmo pela cidade, ocupado em revolver sacos de lixo. O repórter condena-o por tratar-se de um homicida que matou e esquartejou a companheira. E mostra-se surpreso pelo fato de o criminoso estar à solta, sendo um perigo para a sociedade.
Discordo do jornalista. Não há punição maior do que a que atormenta o assassino. Cadeira elétrica? Forca? Fuzilamento? Injeção letal?! Acredito que nenhuma dessas penalidades doa tanto quanto o sentimento do ex-médico. Seu discurso? O silêncio! Seu prazer? A dor!
Foi médico. Sua especialidade: dermatologia... Médico dermatologista não é aquele que estuda e trata a pele. É um profissional envolvido ? também ? com a beleza. Intervenções plásticas, implantes, busca incessante do belo.
O ex-médico não merece ser defendido. E nem é necessário que o condenemos. Não é necessário!
Não se trata de um ex-dermatologista. Não se trata de um ser humano. É, hoje, um ser vazio por dentro. É apenas uma sombra que passa. Mas deveria ser motivo de estudo, mostrando o significado da degenerescência humana.
Diante dos olhos, a sombra indistinta de alguém exibindo um longo cajado, à procura de lixeiras. Uma sombra. Apenas uma sombra. Só isso!
Álvaro Baptista Pontes, da Academia Bauruense de Letras