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Voto nulo é um ato de consciência política!

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 3 min

Voto nulo não anula eleição, mas votar também não é a solução. Infelizmente, a cada dois anos duas mentiras ganham destaque ao lado do festival de promessas dos candidatos. A primeira delas, desmentida em uma reportagem publicada domingo passado no JC, afirma que a maioria simples de votos nulos anulariam uma eleição. Fruto, creio eu, da boa intenção de alguns "leigos" que se aventuram na interpretação das leis escritas em um linguajar rebuscado e inacessível para boa parte da população, essa mentira não é tão vil como a segunda, que parte dos órgãos oficiais em uma campanha contra o voto nulo. Esta mentira começa com a ideia de que o voto nulo, em branco ou abstenção ajuda a eleger os políticos que não te representam ou que vai favorecer os políticos corruptos.

Porém, essa campanha se esquece que com uma estrutura baseada no financiamento privado de campanha e no quociente eleitoral, a estrutura corrupta se atinge todos os candidatos. Por mais honesto que uma pessoa seja, o voto depositado em seu favor vai beneficiar os grandes barões da política, já que cada voto é somado em prol do partido e da coligação, que através do quociente eleitoral, no fim, conseguem mais uma, duas ou mais cadeiras nas casas representativas. Essa história é conhecida e repetida, como foi a eleição do palhaço Tiririca, em 2010, quando "levou" consigo mais três deputados ou, em 2006, quando o cardiologista Éneas Carneiro recebeu votos que "elegeram" outros cinco candidatos do Prona.

As campanhas milionárias necessárias para eleger os candidatos são também são fonte de uma corrupção muito mais corrosiva do que qualquer voto nulo é capaz de proporcionar. Com uma previsão de gastar R$ 500 milhões, os três principais candidatos à presidência precisão correr atrás de grandes empresas para abastecer seus cofres com a verba necessária para pagar viagens, vídeos publicitários, impressos, equipes de marketing e outras despesas geradas na corrida rumo ao Palácio do Planalto.

E é ingênuo quem imagina que essas doações vem de bom grado e sem interesse. Prova disso é a fonte dessa receita: 49% das doações de pessoas jurídicas dos partidos nas eleições de 2012 vieram de empreiteiras, somando quase R$ 270 milhões. As cinco principais empreiteiras do país doaram quase a metade desse valor. Em um levantamento realizado pela agência Pública, as doações não ficam restritas aos períodos eleitorais. A reportagem publicada no último dia 30 mostra que Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez investiram mais de R$ 479 milhões em diversos partidos entre 2002 e 2012. Apesar de bem diversificado, as doações são sempre majoritárias para PSDB, PMDB e PT, mostrando a falta de qualquer afinidade ideológica/partidária.

O retorno dos investimentos vem de diversas formas. A mesma reportagem aponta que só a Odebrecht e a Andrade Gutierrez dividiram R$ 1,1 bilhão em empréstimos do BNDES, suas concorrentes ficaram com meio bilhão no mesmo período (2004-2013). As quadro grandes empreiteiras também se beneficiam com licitações de grandes obras, para a Copa do Mundo de Futebol, Olimpíadas, Belo Monte, entre outras, jamais isentas de polêmicas, como o viaduto que desabou em Belo Horizonte neste mês.

Posto isso, a opção por não participar do teatro eleitoral é - e deve ser - um ato político. Para votar nulo, em branco ou até se abster (escolhendo ou não pagar a multa de pouco mais de três reais) é necessário mais do que preguiça ou descrença na democracia. Tal opção clama por uma consciência política, um reconhecimento de que o voto não é o ápice da vida democrática - sobretudo no formato praticado no Brasil, mas que está se faz a partir de si, em suas ações cotidianas na sociedade.

Votar nulo não anula as eleições, mas leva os indivíduos que optam pela não participação neste circo midiático bianual à se colocarem como atores principais de suas vidas políticas, além de ajudar na conscientização da população que politica não se restringe às urnas.

O autor é jornalista, formado em filosofia

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