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Medos que trazem riscos

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Nossas ruas desde que transformadas em palco de manifestações populares estão inquietas diante do processo eleitoral em andamento, desenhados cenários de boataria alarmista que repercutem por vozes anônimas. Circula que encerrado o processo eleitoral esforços para implantação de estado bolivariano inspirado na Venezuela chavista serão desencadeados, o quadro econômico poderá recomendar moratória, a inflação vai romper artificial barreira de contenção e as tarifas públicas e os preços administrados vão explodir, haverá novo seqüestro de ativos financeiros agora mais sofisticado para dificultar controle judicial, as agressões à ordem constitucional serão contornadas por uma maioria afinada do Supremo Tribunal Federal, salários e proventos deverão sofrer algum tipo de congelamento, turismo e compras no exterior passarão por rígidas restrições e se a oposição vencer o pleito milhares de aconchegados sem concursos públicos nas tetas do governo tomarão as ruas para contestar o resultado das urnas, retrocedendo para tempos já superados na nossa evolução política quando Carlos Lacerda livremente esbravejava que Getúlio Vargas não poderia ser candidato, se candidato fosse não poderia ser eleito, se eleito fosse não poderia ser empossado e se empossado fosse não poderia concluir seu mandato.

Essa boataria toda que não desfruta de mínima credibilidade a partir de nossa ordem constitucional consolidada e dos valores democráticos nela agasalhados apresenta, entretanto, um ponto real e concreto de preocupação quando deixa transparecer no ambiente das ruas generalizado sentimento da existência do maior de todos os medos qual seja o medo do governo e dos governantes que, substancialmente, carregam a suprema responsabilidade de assegurar e dar eficácia a valores político-democráticos essenciais ao nosso sistema de convivência.

O medo, qualquer que possa ser sua forma, nasce e se alimenta de experiências passadas desagradáveis e do risco racional, e até irracional, de possíveis repetições. As estripulias governamentais de nosso passado político-administrativo, certamente reais e muito conhecidas, são pecados governamentais inesquecíveis que estão na origem e são causas determinantes desse sentimento que, mesmo desprovido de racionalidade, exige e merece preocupação.

Só a verdade compromissada e confirmada tem força para dissipar tais temores. Propostas, planos de governo e toda a publicidade eleitoral dos candidatos passam pelo sensível crivo de seus marqueteiros. São eles que pautam temas que valorizam circunstâncias favoráveis e minimizam ou ocultam as desfavoráveis, certamente tendo meios e formas de captar o sentimento coletivo que vem das ruas e de influir para tentar superá-lo e afastá-lo do imaginário popular com decência e dignidade profissional. Todavia se os candidatos e esses profissionais que os orientam falharem na sua captação ou no seu tratamento verdadeiro e decente deixarão em aberto variáveis muito perigosas que poderão ter influência decisiva e trazer surpresas no desfecho do processo eleitoral ora em andamento. A sabedoria popular do alto de sua experiência adverte e confirma que cachorro picado por cobra tem pavor, até, de inofensiva e saborosa lingüiça. Então para ventura da pátria e diante do quadro atual o compromisso com a verdade é essencial e necessário para o bom desenho de expectativas futuras.

O autor é advogado e articulista o JC

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