Quem de nós, deliberadamente, vai a pé? Estou falando em andar até lá, até ali no falso longe. Em dispensar o conforto inseguro da engrenagem com ar, CD e volante, e tão somente caminhar.
Na correria de todos os nós do dia, vamos perdendo o prazer da lentidão. Uma pena. Porque é um aprendizado seguir feliz com as próprias pernas. E mais do que isso: andar com a vontade da observação. Riqueza de vida a perambular. Se for com essa chuvinha ou frio, ainda melhor.
Só a pé é possível observar outras texturas e nuances do urbanismo da cidade. É fora de veículos que se capta fragmentos de prosas divertidas, além de garantir uma intimidade mais verdadeira com a cidade.
Como é bom andar espiando ao redor. Tá cheio de site a elencar vantagens de tal lento e gradual movimento nas nossas péssimas calçadas. Andar alivia dores (inclusive da alma); melhora a atividade pulmonar (verdade); afaga o amor próprio (essa, inventei agora). Faz bem, seja como for.
A impressão que dá é que estamos cada vez mais sem paciência para, digamos, hábitos humanos. Tipo andar e observar. Estamos cada vez mais seduzidos por hábitos de máquina. Tipo navegar nas redes virtuais. Estamos ficando virtuais demais.
Para retomar uma certa vocação de ser organismo vivo, saia um dia sem lugar para chegar. Ruptura da rotina: vague por aí. Os benefícios são tão evidentes quanto imediatos. Inclusive contra derrame, diabetes, câncer, etc. Ah, e faz a alegria da tal serotonina: hormônio da felicidade, neurotransmissor do humor.
O coração também é grato pelas andanças e boas imagens no campo de visão. Apesar das péssimas calçadas, Bauru oferece belos cenários para tal prática. Observe melhor: tem, sim. Só temo estarmos virtuais demais para enxergar.
O autor é editor executivo do JC